-- PARTE 1 -- Acordar assim não era parte do plano
Era Natal. Uma época que sempre a deixava muito reflexiva e um pouco melancólica. O ônibus passava pelo centro da cidade, diante das lojas agitadas mesmo ao anoitecer. Enquanto percorria o caminho de casa, notou como as coisas estavam diferentes. As casas iluminadas, com as luzes coloridas piscando hora sincronizadas, hora descompassadas, iluminavam com cores as ruas cinzas. A cidade estava agitada, como se todos quisessem deixar tudo em dia para se esquecer do mundo por um tempo.
Pensava sobre como estava superando relativamente bem todas as adversidades que apareceram. Tinha sido um ano difícil, e sua energia se drenava antes mesmo que pudesse se recarregar. Mesmo assim acordava e fazia o que precisava ser feito. Chorava todos os dias quando não tinha ninguém olhando, de manhã e à noite. Parecia que o choro permitia que ela respirasse dentro de um sufoco que sentia de si mesma, que não lhe dava trégua. Seu maior prazerem nos últimos tempos era chegar em casa, jantar e tomar um banho quente. À medida que os prédios diminuiam, sua paz aumentava. Seus pensamentos voavam por sua mente como pequenos curtas em uma tela, e iam de um tema a outro na velocidade da luz.
Quando percebeu, já era hora de descer. Precisava passar no mercado, comprar as provisões para poder passar os dias do feriado em casa. Sentia-se diferente. Enquanto fazia compras, sentiu o aroma das frutas que estavam mais próximas, como se estivesse acordando de um transe. Percebeu o doce cheiro das mangas demasiado maduras. Passou pelas maçãs, chamativas, brilhantes. Escolheu as menores, que para ela eram as mais bonitas. Olhava toda aquela exuberância da natureza à sua disposição. Levou um pouco de agrião e algumas verduras, bananas - que gostava de colocar descascada no congelador para comer como sorvete - pão e chá. Olhou para as carnes e, apesar de há muito tempo ter se tornado vegetariana escolheu levar um pedaço pequeno, afinal, era um dia especial. Ao passar as compras pela menina do caixa, conversaram sobre como todos estavam alvoroçados nessa época do ano. Uma senhora que voltou procurando seu cartão que não encontrava em lugar nenhum. Após avisar a alguns funcionários encontrou em seu bolso. Um rapaz que fez cara feia pro senhor de idade que pediu preferência na fila. Estava alheia a tudo isso. Apenas observava um mundo do qual não queria mais fazer parte. O mundo dos problemas humanos.
Caminhou os dez minutos que separavam o mercado de casa, com um andar lento e pensativo, sentindo o vento que começava a levar o calor do dia embora passar pelos seus cabelos, como se estivesse suavizando também seus pensamentos. Escutava os carros passando, espaçadamente. Alguns com uma calma serena, outros uma pressa irritante. Comprimentou os rapazes do bar, que conhecia de vista. Não sabia como, mas eles estavam sempre ali, como se não precisassem fazer mais nada da vida. Um deles até tirou seu chapéu de cowboy cumprimentando a bela forma feminina que passava pela calçada. Helena parecia bem mais jovem, e apesar de estar com quarenta e tantos anos, poucos acertavam sua idade, tão frágil e juvenil parecia. Seu corpo pequeno e esguio dava a impressão que há pouco entrara na vida adulta, e somente algumas poucas marcas no rosto mostravam o quanto já havia vivido.
Virou a esquina de casa observando os detalhes das árvores, a cor azul alaranjada cada vez mais escura do céu, as formas macias e arrendondadas das nuvens que deixavam tudo tão leve. Enquanto reparava nos vizinhos ao longe passeando com seus cães pensou no que ia fazer. Prepararia sua refeição, tomaria um banho, e ia dormir.
Enquanto preparava a janta, refletia sobre a própria vida, e comeu em silêncio. Sentia um cansaço que parecia mais forte que o corpo. Não era apenas físico, era como se pensar exigisse esforço demais. Como se existir fosse um trabalho contínuo.
Foi até o armário do banheiro e abriu a caixa de remédios. Precisava desligar por algumas horas. Talvez por uma noite inteira. Talvez mais.
Sentou-se na cama com os comprimidos. Havia tomado doses parecidas outras vezes, em noites difíceis, quando o corpo simplesmente não obedecia. Não contou quantos eram. Também não quis contar. Engoliu um, depois outro, depois mais alguns, como quem apaga pequenas luzes dentro de si. Começou a ler, e o sono veio logo.
Em algum momento, o quarto começou a perder contorno. A sensação não era exatamente de um descanso, mas de afastamento. Como se o mundo fosse ficando distante demais para alcançar. Tentou se concentrar na respiração, e até isso parecia longe.
Deitou-se ainda com o pensamento confuso. Pensava no dia seguinte. Ainda havia coisas a fazer. Arrumar a casa. Roupas para lavar. Tinha que terminar de...
Apagou.
Quando abriu os olhos, a primeira coisa que sentiu não foi dor. Foi frustração.
O teto era branco demais. A luz era branca demais. Não estava em seu quarto.
Olhou em volta e tentou se mover, mas não conseguiu. Piscou devagar, como se pudesse negociar com o corpo. Mas o corpo não quis. Permaneceu parado, com toda a calma do mundo.
— Olá - disse uma voz.
Helena virou a cabeça. Uma mulher sentava-se ao lado da cama com um caderno no colo. Não usava jaleco. Nem uniforme. Só roupas comuns demais para aquele ambiente estéril. Não conseguiu responder.
— Você quer água?
Helena assentiu. Enquanto bebia, percebeu o peso do próprio braço. Seu corpo estava tão pesado. Como se tivesse percorrido quilômetros. Lutava para manter a força.
— Meu nome é Ana Laura. Sou psicóloga da equipe.
Claro. Havia uma psicóloga. Sempre há uma psicóloga nesses casos. Devia ter passado da conta na dose e agora era hora de responder pelo excesso.
— Você lembra do que aconteceu?
Helena hesitou. Lembrava do quarto escuro, dos remédios, do silêncio, da sensação estranha de alívio. Mas teve vergonha de confessar em voz alta. Fez que sim com a cabeça.
— Você quer falar sobre isso agora?
Helena olhou para o teto outra vez.
— Não.
Ana Laura assentiu com a cabeça.
— Tudo bem. Vamos devagar. Hoje eu vim só para te propor um exercício simples. Faça a seu tempo. Não há pressa. Acredito que você deva ficar algumas semanas aqui.
Helena não podia acreditar. Semanas! Ao invés de resolver tudo parece que ia se complicar ainda mais. As contas que chegariam, o emprego que poderia ser perdido. As pessoas perguntando… essa era a pior parte, a vergonha de contar o que tinha acontecido. Tudo por uns poucos comprimidos, oras!
— Semanas? Foi tão sério assim?
— Poucas semanas. Só até resolvermos essa situação. Até você ficar bem.
Helena não respondeu.
A psicóloga abriu o caderno.
— Quero que você escreva.
— Escreva o que?
— O que quiser. Para quem quiser.
Helena soltou um riso quase seco, sem conseguir se conter, que exigiu um tanto de esforço.
— E se eu não souber o que dizer?
Ana Laura a encarou com calma escolhendo as palavras com cuidado.
— Você está numa situação muito atípica. Alguma coisa você tem para dizer.
Só restou o silêncio no quarto, tão calmo quanto intimidador. Deixou o caderno e a caneta sobre a mesinha ao lado da cama.
— Não precisa escrever agora. Mas pense com carinho... Como uma possibilidade.
Antes de sair, acrescentou:
— Às vezes a gente não precisa de respostas. Só precisa começar a fazer perguntas honestas.
Deu um longo sorriso tão quente que foi possível sentir o amor nele. Elas sorriram entre si. Ela se levantou, olhou para o caderno e a caneta, e saiu. Assim que a porta se fechou Helena ficou olhando para o caderno. Parecia um caderno de dez matérias, grande. Capa preta. Simples. Ficou assim por minutos, ou horas, não sabia. O tempo naquele lugar não obedecia nada.
Estava sozinha no quarto. Havia alguns móveis, mas não havia televisão, revistas, ou qualquer item que pudesse lhe proporcionar distração. Reparou em uma janela grande, com uma veneziana que estava fechada. O lugar era muito limpo e minimalista.
Com algum esforço, estendeu a mão e abriu o caderno. Todo em branco.
— Ok. — murmurou sozinha. — Pelo jeito vou ter bastante tempo. Talvez escrever ajude a passar mais rápido. Mas o que vou escrever, e pra quem?
Pensou na mãe. No pai. No ex. No chefe. Mas não sentiu vontade de escrever pra nenhum deles. Nada tocava seu coração. Então veio um pensamento estranho, quase involuntário: “E se eu escrevesse para quem eu poderia ter sido?” A ideia ficou suspensa no ar. Sentiu um alento no peito, como se seu coração concordasse.
-- PARTE 2 -- Primeira Carta - Para e Helena Que Eu Queria Ser
Pegou a caneta. Escreveu bem no topo da página, no espaço acima da primeira linha.
Para a Helena que eu queria ser.
Ficou olhando aquelas palavras. Algo apertou no peito. Não era desespero, mais parecia um tipo de saudades do que poderia ter sido. Começou a escrever no mesmo instante que as gotas de chuva começavam a cair pesadas do lado de fora.
“Aqui estou eu, em um hospital ou algo do tipo, por ter tomado calmantes demais. Quando mais eu tento aliviar tudo mais parece que me afundo. E imagino você, Helena que eu queria ser. Eu imagino que você tenha lutado. Imagino que você tenha sido tudo que eu não consegui ser. Talvez você teve mais coragem pra dizer não, para largar o que não servia. Talvez simplesmente não tenha dado importância demais para coisas tolas. Tenha priorizado sua saúde física e mental, e não precisou agradar a ninguém. Se formou e teve outra profissão. Talvez você tenha casado.”
Parou. Sentiu algo estranho, mas ignorou. Continuou.
“E eu penso comigo se você está em paz. Qual o resultado das escolhas de um caminho diferente.
Penso que teve uma família pra chamar de sua, marido, talvez filhos lindos e doces, e quem sabe um cachorro ou gatinho. Você estudou artes como queria, se formou e conseguiu trabalhar como em seu sonho? Talvez teve uma empresa, ou criou obras e quadros. Talvez tenha feito o desenho de objetos bonitos. Penso se tirou carteira de motorista, superando seu medo de dirigir. Quem sabe até de moto. Você viajou pra lugares bonitos, e conheceu pessoas incríveis. E você deixou uma marca muito bonita no mundo.”
Largou a caneta e respirou fundo. Ao reler, parecia que havia escrito pouco comparado ao grande esforço que fez. Fechou o caderno e virou o rosto para o lado, exausta. E adormeceu.
Só abriu os olhos novamente quando ouviu um som leve. Virou-se. O caderno estava aberto, e havia algo escrito na página seguinte. Ficou imóvel por um tempo. Parecia a sua letra, mas diferente. Ligeiramente maior, mais segura. Os traçados eram mais firmes e parecia que havia sido escrito com força. Um arrepio a atravessou de cima até embaixo. Quando o calafrio passou por trás do pescoço, levantou ligeiramente os ombros para senti-lo percorrer o corpo todo.
Não imaginou que alguém fosse ler sem sua permissão. Pensou consigo “Deve ser coisa da Ana Laura.”
Lentamente, e com muita desconfiança, puxou o caderno para mais perto e começou a ler.
“Você sempre achou que coragem era ausência de medo. Não é. Coragem é ir, mesmo tremendo por dentro. Se eu pudesse lhe falar da maior bênção que eu poderia lhe dar, não seria a proteção. Eu nunca lhe desejaria que as coisas dessem certo por completo em sua vida. Pelo contrário, o maior bem que eu poderia lhe desejar seria uma experiência plena do que é ser humano. Com todas as vitórias e derrotas, os sucessos e as frustrações, os dias felizes e os dias tristes. A disciplina e os vacilos. As forças e as fraquezas. Cada qual em seu momento, e cada qual com seu valor e ensinamento.
Suas atribulações são no fundo apenas mais do mesmo. Versões modernas de histórias bíblicas, mitológicas, de tempos imemoriais. Eu te digo que sim, valeu a pena.
Fernando Pessoa diz assim em seu poema "Mar Português":
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
Muitas vezes nossas maiores descobertas e conquistas na vida vem depois de grandes desafios. Muitas vezes não nos julgamos capazes de transpor, até que conseguimos, e aí parece que sempre foi assim. E novos caminhos se abrem. Sua dor não veio da escolha, mas de não as ter feito. Você valeu a pena. Não desmereça sua luta e suas escolhas. Eu gostei muito da imagem que você criou da versão alternativa da Helena. Quem sabe podemos conversar mais sobre ela?”
Ela virou a cabeça para o quarto. Ninguém. Fechou os olhos e prestou atenção aos sons do corredor, que permanecia completamente silencioso. Olhou novamente para a página. Lembrou do sorriso caloroso que recebeu de Ana Laura.
Então era assim que sua terapia seria conduzida? Folheou a página anterior. Depois, aquela. Que letra bonita. Precisa. Viva. Ficou com o poema na cabeça. E fechou os olhos. Não se sabe por quanto tempo.
Quando despertou Ana Laura estava parada à porta, junto de uma enfermeira que aguardava pacientemente para fazer algumas medições com aparelhos. No outro lado a janela grande com a veneziana aberta deixava entrar uma luz que aquecia o quarto todo. Depois de deixar os olhos se acostumarem um pouco com a forte claridade, conseguiu ver algumas árvores e um pedaço azul do céu. Não havia prédios em volta, devia estar em um lugar remoto. A janela entreaberta deixava entrar um ar fresco, que tornava o ambiente ainda mais pacífico. Ao longe, quase na linha do horizonte, uma cadeia montanhosa mostrava suas belas formas arredondadas, em uma imponência e elegância que completavam o bonito quadro que se desenhava. Assim que a enfermeira terminou seus afazeres saiu silenciosamente.
— Você acordou rápido hoje - disse Ana Laura, com a mesma voz calma.
— Que bonito que é aqui. Não fazia idéia.
Respirou, como que voltando a si, e perguntou:
— Você escreveu no meu caderno?
Ana Laura não respondeu de imediato. Aproximou-se, sentou na cadeira ao lado da cama, como fizera antes.
— Não fui eu.
— Quem foi?
— Te digo quando chegar o momento. O que você sentiu ao ler?
— Não sei bem. Acho que um pouco de arrependimento. Um pouco de nostalgia de algo que nem existiu.
— Que bom que você está se recuperando bem.
— Não tem nada mais com que possa me distrair aqui?
— Não. Aqui tudo é pensado para acalmar os pensamentos e os sentimentos. Dadas as circunstâncias de como você chegou, esse é o lugar indicado. E essa ausência de atribulações, que muitos chamariam de tédio, faz parte do processo de cura. As pessoas se esqueceram que não precisam estar fazendo algo o tempo todo.
Helena ainda pensava onde estaria. Os efeitos de suas ações ainda reverberavam pelo seu corpo e ela se sentia ainda um pouco fraca. Tomara que tudo voltasse logo ao normal. Já estava até mais tranquila em voltar pra sua vida e seguir em frente.
— Estou num hospício? — perguntou.
— Não. Está em um hospital especializado em casos como o seu. Fique tranquila. Logo poderá sair pra ver quão belo é lá fora. É só se fortalecer um pouco mais. Por hora, tudo o que podemos fazer é conversar, e se você quiser, escrever. A cada novo dia vemos como as coisas estão indo. Cada sinal de que está melhorando nos dá um alento, e permite que continuemos trabalhando.
— Obrigada. - Foi tudo que conseguiu responder.
— Se precisar de algo pode chamar pela campainha.
Finalmente reparou no quarto onde estava.
Parecia mais um hotel que um hospital. Tinha um quadro na cabeceira, com formas geométricas que lembravam uma paisagem feita de fractais. Uma mesa de cada lado da cama, que era maior que a própria cama onde dormia todos os dias. Em uma das mesas o caderno e a caneta, e do outro lado uma luminária ao lado de um vaso de vidro, com flores que estavam perfeitamente floridas. Devem ser de plástico, pensou. Um pouco mais afastado, próximo à janela, um pequeno sofá. Vazio. Será que alguém tinha sido avisado que ela estava lá? Em breve as visitas deveriam começar a chegar.
Com o pensamento de que deveria aproveitar a hospitalidade simples mas elegante de onde estava, e que realmente estava precisando de um tempo sozinha, começou a se conformar com a situação.
— Que bobagem fiz! - pensou alto.
-- PARTE 3 -- Uma história de amor
Lembrou-se de quando conheceu Rafael. Definitivamente foi o amor de sua vida, tanto pela profundidade quanto pelo tempo que permaneceram juntos. Lembrava que foi um pouco antes do ano novo, e quando fez as contas percebeu que faria vinte e cinco anos desde esse dia.
Mas ela lembrava como se fosse ontem.
Foi numa ilha, que ficava a cerca de cinco horas de casa. Quer dizer, cinco horas de viagem, porque eram duas horas de carro, atravessando as belas montanhas da serra e mais três horas de barco. Mas entre chegar lá e pegar o barco demorava mais algumas horas, então era preciso tirar quase um dia inteiro. Será que eram essas montanhas que estava vendo pela janela?
Quando o pessoal da escola a convidou, pensou muito em recusar, afinal, tinha só uma semana de férias e dois dias seriam gastos somente na viagem. Mas aceitou, afinal o lugar era muito bonito. Afastado, possuia uma vila de pescadores pequena e aconchegante, e uma grande extensão de quilômetros de praia deserta. Também não estaria sozinha. Era uma oportunidade única passar o ano novo com alguns amigos em um lugar diferente. Aceitou.
Os três primeiros dias foram bem calmos, chegou na pousada, conheceu várias pessoas diferentes, dentre eles seu Dourado e dona Jolina, os pescadores donos da casa. Foram dias de descanso, praia, diversão e uma conexão com a natureza que não sentia há tempos. Em uma das manhãs acordou de madrugada e sem despertador, algo que era muito raro em sua vida, e saiu pra dar uma volta na praia. Respirando o ar limpo, ainda com aroma da madrugada - seria o ozônio? - observou uma revoada de pássaros que passavam em grupo ao longe, imaginando como seria o dia a dia deles. Enquanto caminhava observava as gaivotas, em uma curva ampla que só se via o mar para os dois lados em sua imensidão e beleza. Conseguiu ver alguns botos passando indo pro alto mar. Estava em um estado de maravilhamento profundo pela existência, e esses dias já eram especiais em suas memórias. Algumas noites tinha fogueira na praia, e as pessoas se reuniam pra conversar, ficar contemplando a paisagem ou tocar violão e cantar.
E foi numa dessas noites que conheceu Rafael. Não sabia nada sobre ele. Ele estava com alguns amigos em volta de uma das fogueiras que espaçadas brilhavam na noite escura de lua nova, tocando violão e cantando. Só dava pra ver a escuridão da praia vazia. E foram as amigas de Helena que quiseram chegar mais perto. Foram muito bem recebidas com sorrisos sinceros e convidadas a se juntar ao luau. Resolveram ficar um pouco. O calor do fogo, o vento da noite, a escuridão incrivelmente bela do céu que de tão negro mostrava o rastro da Via Láctea como se tivesse sido tecido em um bordado de luz.
Ele tocava violão, e todos cantavam. Seus olhares se cruzavam vez por outra, e ela notava um sorriso diferente nesses momentos. Um amigo do grupo que estava na roda chegou perto de Helena, que estava linda, com um vestido simples azul, comprido até pouco abaixo das coxas, e que mostrava suas formas sem expor demais. Além da sua beleza, sua energia radiante a fazia sorrir diferente, com os olhos. Ele chegou interessado mesmo. Começou a conversar sobre a noite, como estava tudo lindo, como ela era linda...
E ela reparou que Rafael olhava com resignação, como se tivesse perdido a chance. Achou engraçado o modo como ele começou a olhar rindo sozinho, e quase conseguia adivinhar seus pensamentos. Por mais algumas músicas o garoto continuou a flertar com ela, e lembra de ter ouvido seu nome mas não gravou. Até que numa tentativa talvez de impressioná-la, pediu a vez no violão. Quando começou a tocar foi realmente impressionante, tocava muito bem e o pessoal seguiu a cantoria. O que o garoto não imaginou foi que nessa deixa Rafael chegou ao lado de Helena e só perguntou:
— Vamos dar uma volta na praia?
Ela consentiu com a cabeça, um sorriso e o olhar.
— Como é seu nome?
— Helena. E o seu?
— Rafael.
Parece que suas almas se encontraram depois de muito tempo. As conversas fluíam sobre sentimentos, pensamentos, a natureza, a vida, o mundo... Contaram um pouco de suas histórias e depois que já se afastavam da última fogueira a vista, em direção à praia deserta, Rafael sugeriu que voltassem. Quando estavam se virando os dois pararam frente a frente. Seus olhares se encontraram. Deve ter sido um instante, mas durou muito tempo. Lentamente se aproximaram um do outro e se beijaram, com um carinho e uma energia que ela não conhecia até então. Ao invés de retornar, sentaram na areia e ficaram conversando por horas. E depois disso foi um dia após o outro, se encontrando e se gostando cada vez mais.
Enquanto lembrava dessa noite, chorou um pouco de alegria e um pouco de saudades.
-- PARTE 4 -- A Segunda Carta - Tudo tem seu fim...
Ainda sentia a alegria da noite em que conheceu Rafael enquanto recapitulava tudo que tinha se passado. O namoro, a cumplicidade, quando foram morar juntos...
Nunca tinha se entregue tão verdadeiramente a alguém. E agora parecia que tinha sido tão superficial sua entrega. Ficou um pouco envergonhada de como era egoísta em alguns momentos. Queria ele somente pra si, logo ele que gostava tanto de ser livre.
Lembrou-se da noite de jantar entre amigos em que ele acendeu as velas de ideogramas que ela tinha, e ela apagou porque gostava delas. Nunca mais foram usadas. Ficaram empoeiradas e perderam a chance de brilhar em uma noite especial. Lembrou-se das vezes em que não deu atenção às conversas, em que as palavras atraverssaram o ar vazias. Também tiveram muitos momentos bons, isso é verdade.
Como as vezes que faziam encontros com os amigos pra conversar sobre a vida, planos para o futuro e compartilhar experiências e risadas. Como quando resolveram morar juntos, e reorganizaram a casa pra ficar do jeito que queriam. Não queriam televisão, e no móvel que antes abrigava o aparelho agora tinha um pequeno jardim. O sofá de canto foi reaproveitado, e a mesa da sala de jantar foi pro outro cômodo, que virou um escritório. Fazer planos era tão bom!
Foram alguns dos anos mais felizes de sua vida, e ainda lembra da noite que Rafael a convidou para irem morar em outra cidade, ou em outro país, que tivesse melhores oportunidades. Helena prontamente recusou, não queria sair do lugar onde conhecia e gostava, e sua vida tinha corrido tão bem até então sem precisar desse movimento desapegado e arriscado. Mas ele já sabia o que queria, e foi mesmo assim. Os primeiros dias, semanas e meses foram sufocantes. Uma tristeza de luto que a fazia sentir o peito se apertando por dentro. Falta de ar, falta de vontade, apatia e tristeza constante. O que tinha acontecido?
Enquanto lembrava desses dias começou a escrever a segunda carta.
Para a Helena que amou e foi amada
"Minha querida. Não entendo bem os caminhos que minha vida seguiu. Fico pensando em como seria se você tivesse se entregue um pouco mais. Se tivesse ouvido um pouco mais. Se tivesse lutado um pouco mais por aquele a quem tanto amou. Às vezes só damos valor a um tesouro depois que o perdemos. Parece que enquanto estamos perto dele não é tão brilhante. Deus coloca tantas coisas maravilhosas em nossas vidas, de forma tão gratuita e abundante, que às vezes não conseguimos ver. E eu gostaria de saber, como foi a vida em que fui feliz no amor? Será que foi com o Rafael? Terei encontrado outro grande amor? Será que meu coração ficou como as velas bonitas, esquecidas em uma caixa sem se consumirem por completo? Sempre coloquei a responsabilidade dessa situação nele, mas agora começo a pensar que nada acontece só. Vejo que talvez, não estivesse à altura do vôo que queria dar, ou que talvez não tive coragem de atravessar essa porta do desconhecido, ou ainda que não quis me entregar de verdade, me preservando sabe-se lá de que. "
Enquanto algumas lágrimas começavam a escorrer, mais de alívio do que de tristeza, continuou...
"Minha vida até aqui foi muito boa, dentro do que consegui ver. Talvez minha visão seja curta. Tive medo de me machucar em vôos mais altos, e de me ferir nas acrobacias da vida. Me preservei um tanto demasiado, e agora que estou frágil e com as coisas fora de controle, percebo que nunca controlei nada mesmo. Tudo era ilusão. As coisas que eu pedia não aconteceram, e as que aconteceram não consegui agradecer direito. Essa criatividade que o mundo insiste em ter muitas vezes me pregou peças que eu não poderia nem imaginar, me levando tanto a lugares maravilhosos como a períodos de escuridão imprevisíveis.
Mas eu acredito, em algum lugar, que pude amar e ser amada. Pra essa Helena, eu desejo de coração que aproveite cada segundo dessa cumplicidade, que possa extrair cada gota do sumo que se forma em tais corações. Eu acredito em finais felizes."
Já era final de tarde, e o colorido do céu azul se misturava com o avermelhado horizonte, que já dava boas vindas à escuridão da noite. O frio da tarde entrava pela fresta entreaberta. Como se lesse pensamentos, a enfermeira veio, fechou a janela e cumprimentou-a. Fez algumas medições com os aparelhos e saiu silenciosamente. O calor que sentia hoje vinha de dentro, do coração, e as imagens que reviveu em sua mente a fizeram transbordar de gratidão, mesmo sem final feliz.
Adormeceu...
Ao acordar, com o sol batendo em seu rosto (ninguém fechou a veneziana e as cortinas?), percebeu que havia algo escrito no caderno. A segunda carta havia sido respondida.
"Helena, o amor permeia tudo, todos os seres e tudo o que existe. O amor da sua vida não era o Rafael, apesar de ele ter sido uma luz em seu caminho. O amor da sua vida sempre foi você. Quando aprendemos a nos desapegar das imagens que temos de nós mesmos, das imagens de nossos corpos e até de nossas mentes, então conseguimos ver as coisas um pouco mais próximas do que realmente são. A existência é uma exuberância de possibilidades, e não há existência sem dor, ao menos não nesse planeta azul. Tudo isso faz parte da grande alegria e responsabilidade de poder escolher entre tantas coisas, pela experimentação da vida.
Não há como amar ninguém se não for o amor que transborda. Existem tantas histórias que parecem contos de fada, mas na realidade são carências e cobranças. Na aparência tudo é mais bonito e fácil.
A flor parece que teve tanta facilidade de nascer, mas ela perseverou por meses ou anos: desde que era uma raiz escondida nas entranhas da terra, até virar um brotinho frágil e pequeno, para só depois de muito tempo florir, ainda que por poucos dias. A força interior é a mais importante.
Você teve um amor mais do que verdadeiro, por todo o tempo que durou, e não foi a falta dele que ocasionou seu fim, mas sim caminhos que se desencontraram. Tudo o que você pôde viver foi ainda maior do que a maioria experimentou. Você talvez ache que foi pouco, mas foi de uma raridade extrema.
Existe muito carvão no mundo, e pouco diamante. Ambos são feitos do mesmo elemento, o carbono. Mas as configurações que os ligam são diferentes. A pressão e a temperatura extrema que atuam sobre o carvão e o fazem sofrer provações é que o tornam um diamante, tão brilhante e belo. Um cristal que parece tão frágil, com uma dureza capaz de cortar aço. Tudo tem o seu valor. E quase tudo nesse mundo vem com dor. A pior parte de ter algo tão bom é o medo de perder. E isso acontece com quem tem uma casa bonita, um carro elegante, dinheiro na conta. Muitas vezes não conseguimos aproveitar o que temos pelo medo de perdermos.
Mas o que acontece é que na verdade, nada possuímos. Tudo volta para onde veio, leve mais ou menos tempo.
Apenas agradecer e se entregar é o que podemos fazer. E você o fez, na sua medida. Leve em seu coração a experiência que teve com gratidão e amor, pois assim como o aroma da dama-da-noite esconde seus segredos do dia, e somente ao entardecer mostra como foi belo, assim são alguns perfumes da vida."
E enquanto agradecia seus olhos brilhavam.
-- PARTE 5 -- O Passeio no Jardim
Ao terminar de ler Ana Laura entrou pela porta.
— Bom dia Helena!
— Olá Ana, bom dia.
— Está se sentindo bem? A enfermeira me falou que quando quiser poderá sair pra dar uma volta. Pensei que poderíamos conversar um pouco.
— Eu adoraria. Não veio nenhuma roupa minha, nem vieram me ver ou trazer meus pertences?
— Aqui é distante, talvez seja difícil virem até aqui. Mas todos estão cientes da sua situação. Vou conseguir algumas roupas novas, que possam te trazer o prazer de estar livre e bem.
Sair de casa sem fazer as malas não era de seu feitio. Pelo contrário, antes de sair fazia uma longa lista com tudo o que tinha que levar, dias, ou semanas antes. Quando começava a arrumar tudo já tinha em sua cabeça o que levar, qual mala usar, que acessórios seriam importantes. Dessa vez parece que seus planos saíram um pouco diferentes.
Ana Laura chegou com uma roupa limpa, uma calça cinza clara e uma camiseta simples branca. Não era o glamour em pessoa mas era melhor do que a camisola de hospital.
Foi até o banheiro tomar um banho e se trocar, e quando se olhou no espelho achou que o descanso havia feito bem. Parecia mais nova, com um rosto sereno. Se admirou por alguns instantes e entrou no chuveiro. Enquanto a água morna a percorria sentiu uma paz imensa. O sabonete deste tinha cheiro de hortelã fresco e parecia recém vindo de uma xícara de chá, de tão forte. Estava ficando mais relaxada e leve. Seu rosto, seu coração, estava tudo mais calmo. Se vestiu rapidamente, não queria demorar pra sair.
Ao voltar para o quarto, Ana Laura ainda estava lá, olhando com a mesma ternura.
— Vamos?
Ao sair do quarto, um corredor largo e imenso mostrou que estava em um hospital muito grande, diferente do que tinha imaginado. Dezenas de portas lado a lado e, bem no meio do corredor, um grande hall aberto para os dois lados onde ficavam as enfermeiras. Para um dos lados a porta de entrada e para o outro o jardim.
Enquanto caminhava admirou-se da organização e limpeza, do silêncio, e da paz. Foi seguindo os passos até a porta, e ficou maravilhada com a arquitetura de aço e vidro que deixava a luz entrar pelos dois lados iluminando todo o hall. Mesmo com tantos quartos o movimento era pequeno, e poucas pessoas passavam pelos corredores.
Quando saíram viram um imenso jardim, cercado de flores, e com árvores que juntas formavam uma pequena floresta. No centro, uma bonita fonte circular, com contornos feitos de pedra. Uma dezena de borboletas passavam por cima de alguns bancos espaçados, e pequenos muros que pareciam ter sido esculpidos por um jardineiro muito habilidoso delineavam os vários caminhos. Algumas pessoas admiravam a paisagem sentadas, enquanto outras caminhavam pelo bosque. Ao fundo a cadeia de montanhas que conseguia ver do seu quarto. Helena ficou impressionada.
— Que lugar bonito! E como é grande aqui.
— Eu gosto muito de trabalhar aqui. É um lugar muito especial.
— Onde estamos?
— Estamos no Hospital de Amparo Aurora Celeste.
— Estamos longe da cidade?
— Sim, bem longe. Pra poder realizar os trabalhos que fazemos aqui.
— E meu plano de saúde cobre isso? Porque eu vim pra cá ao invés de ir pra um hospital normal?
— Tem certeza que é hora de conversarmos sobre isso?
— Tenho sim, quero entender o que está acontecendo.
— Você morreu, Helena.
Um silêncio eterno se fez presente. Tudo fazia sentido. Helena desabou. Ana Laura percebeu o choque.
— Sei que não era sua intenção que tudo acabasse assim, mas infelizmente demorou muito para que percebessem que algo estava errado, e os médicos terrenos não conseguiram salvar você. Quando algo assim acontece, é necessário que façamos um processo de transição energética. O tempo que você deveria ter ficado na Terra ainda não acabou, e sua vinda pra cá não estava nos planos. Todos os que estão aqui vieram antes da hora.
Não podia acreditar. Seus sonhos, seu trabalho, sua vida. Queria estar de volta, queria estar no ônibus voltando pra casa. Queria estar no mercado fazendo as compras. Queria estar em casa. Queria voltar atrás pra mudar a decisão impulsiva que mudou tudo tão rápido. Como assim?
— Não acredito... - falou com um tom triste, enquanto processava o acontecimento. Pensou que podia estar sonhando. Era tudo um sonho. Começou a chorar compulsivamente.
Sentaram-se em um dos bancos. Ana Laura só ficou ali, segurando sua mão enquanto os raios de sol aqueciam aquelas duas almas que se uniam em um momento tão delicado. A brisa suave que transportava os aromas das flores e da relva trazia lembranças de muitos momentos. Enquanto assimilava o que estava acontecendo uma borboleta de um azul brilhante passou bem perto das duas. Meu Deus, que bobagem! Por conta de uma decisão tão tola. E agora?
Helena ainda conseguiu falar:
— Só quero uma segunda chance, por favor...
Começou a suar frio. Suspirou e desmaiou.
-- PARTE FINAL -- O Novo Despertar
Quando Helena acordou estava em seu quarto, em sua casa, viva.
Sua mãe e seu pai em volta, olhando assustados.
— Graças a Deus! Acordou!
— Porque estão aqui? - perguntou
— Porque ligamos ontem pra você e você não atendeu. Então viemos ver se estava tudo bem.
Ainda estava suando frio.
Olhou pra luz entrando pela janela, respirando aliviada, e uma linda borboleta azul brilhante, como só tinha visto uma vez, passou voando livre, como que libertando seus pensamentos para sua nova vida.







