19 fevereiro 2026

Um Conto Experimental - Cartas para as Vidas que Não Vivi



-- PARTE 1 -- Acordar assim não era parte do plano


    Era Natal. Uma época que sempre a deixava muito reflexiva e um pouco melancólica. O ônibus passava pelo centro da cidade, diante das lojas agitadas mesmo ao anoitecer. Enquanto percorria o caminho de casa, notou como as coisas estavam diferentes. As casas iluminadas, com as luzes coloridas piscando hora sincronizadas,  hora descompassadas, iluminavam com cores as ruas cinzas. A cidade estava agitada, como se todos quisessem deixar tudo em dia para se esquecer do mundo por um tempo. 

    Pensava sobre como estava superando relativamente bem todas as adversidades que apareceram. Tinha sido um ano difícil, e sua energia se drenava antes mesmo que pudesse se recarregar. Mesmo assim acordava e fazia o que precisava ser feito. Chorava todos os dias quando não tinha ninguém olhando, de manhã e à noite. Parecia que o choro permitia que ela respirasse dentro de um sufoco que sentia de si mesma, que não lhe dava trégua.  Seu maior prazerem nos últimos tempos era chegar em casa, jantar e tomar um banho quente. À medida que os prédios diminuiam, sua paz aumentava. Seus pensamentos voavam por sua mente como pequenos curtas em uma tela, e iam de um tema a outro na velocidade da luz. 

    Quando percebeu, já era hora de descer.  Precisava passar no mercado, comprar as provisões para poder passar os dias do feriado em casa. Sentia-se diferente. Enquanto fazia compras, sentiu o aroma das frutas que estavam mais próximas, como se estivesse acordando de um transe. Percebeu o doce cheiro das mangas demasiado maduras. Passou pelas maçãs, chamativas, brilhantes. Escolheu as menores, que para ela eram as mais bonitas. Olhava toda aquela exuberância da natureza à sua disposição. Levou um pouco de agrião e algumas verduras, bananas - que gostava de colocar descascada no congelador para comer como sorvete - pão e chá. Olhou para as carnes e, apesar de há muito tempo ter se tornado vegetariana escolheu levar um pedaço pequeno, afinal, era um dia especial. Ao passar as compras pela menina do caixa, conversaram sobre como todos estavam alvoroçados nessa época do ano. Uma senhora que voltou procurando seu cartão que não encontrava em lugar nenhum. Após avisar a alguns funcionários encontrou em seu bolso. Um rapaz que fez cara feia pro senhor de idade que pediu preferência na fila. Estava alheia a tudo isso. Apenas observava um mundo do qual não queria mais fazer parte. O mundo dos problemas humanos.

    

    Caminhou os dez minutos que separavam o mercado de casa, com um andar lento e pensativo, sentindo o vento que começava a levar o calor do dia embora passar pelos seus cabelos, como se estivesse suavizando também seus pensamentos. Escutava os carros passando, espaçadamente. Alguns com uma calma serena, outros uma pressa irritante. Comprimentou os rapazes do bar, que conhecia de vista. Não sabia como, mas eles estavam sempre ali, como se não precisassem fazer mais nada da vida. Um deles até tirou seu chapéu de cowboy cumprimentando a bela forma feminina que passava pela calçada. Helena parecia bem mais jovem, e apesar de estar com quarenta e tantos anos, poucos acertavam sua idade, tão frágil e juvenil parecia. Seu corpo pequeno e esguio dava a impressão que há pouco entrara na vida adulta, e somente algumas poucas marcas no rosto mostravam o quanto já havia vivido. 

    Virou a esquina de casa observando os detalhes das árvores, a cor azul alaranjada cada vez mais escura do céu, as formas macias e arrendondadas das nuvens que deixavam tudo tão leve. Enquanto reparava nos vizinhos ao longe passeando com seus cães pensou no que ia fazer. Prepararia sua refeição, tomaria um banho, e ia dormir.

    Enquanto preparava a janta, refletia sobre a própria vida, e comeu em silêncio. Sentia um cansaço que parecia mais forte que o corpo. Não era apenas físico, era como se pensar exigisse esforço demais. Como se existir fosse um trabalho contínuo. 

    

    Foi até o armário do banheiro e abriu a caixa de remédios. Precisava desligar por algumas horas. Talvez por uma noite inteira. Talvez mais.

    Sentou-se na cama com os comprimidos. Havia tomado doses parecidas outras vezes, em noites difíceis, quando o corpo simplesmente não obedecia. Não contou quantos eram. Também não quis contar. Engoliu um, depois outro, depois mais alguns, como quem apaga pequenas luzes dentro de si. Começou a ler, e o sono veio logo.

    Em algum momento, o quarto começou a perder contorno. A sensação não era exatamente de um descanso, mas de afastamento. Como se o mundo fosse ficando distante demais para alcançar. Tentou se concentrar na respiração, e até isso parecia longe.

    Deitou-se ainda com o pensamento confuso. Pensava no dia seguinte. Ainda havia coisas a fazer. Arrumar a casa. Roupas para lavar. Tinha que terminar de... 

Apagou. 

Quando abriu os olhos, a primeira coisa que sentiu não foi dor. Foi frustração.

O teto era branco demais. A luz era branca demais. Não estava em seu quarto.

Olhou em volta e tentou se mover, mas não conseguiu. Piscou devagar, como se pudesse negociar com o corpo. Mas o corpo não quis. Permaneceu parado, com toda a calma do mundo. 


— Olá - disse uma voz.

Helena virou a cabeça. Uma mulher sentava-se ao lado da cama com um caderno no colo. Não usava jaleco. Nem uniforme. Só roupas comuns demais para aquele ambiente estéril. Não conseguiu responder.

— Você quer água?

Helena assentiu. Enquanto bebia, percebeu o peso do próprio braço. Seu corpo estava tão pesado. Como se tivesse percorrido quilômetros. Lutava para manter a força.

— Meu nome é Ana Laura. Sou psicóloga da equipe. 

Claro. Havia uma psicóloga. Sempre há uma psicóloga nesses casos. Devia ter passado da conta na dose e agora era hora de responder pelo excesso.

— Você lembra do que aconteceu?

Helena hesitou. Lembrava do quarto escuro, dos remédios, do silêncio, da sensação estranha de alívio. Mas teve vergonha de confessar em voz alta. Fez que sim com a cabeça.

— Você quer falar sobre isso agora?

Helena olhou para o teto outra vez.

— Não.

Ana Laura assentiu com a cabeça.

— Tudo bem. Vamos devagar. Hoje eu vim só para te propor um exercício simples. Faça a seu tempo. Não há pressa. Acredito que você deva ficar algumas semanas aqui. 

Helena não podia acreditar. Semanas! Ao invés de resolver tudo parece que ia se complicar ainda mais. As contas que chegariam, o emprego que poderia ser perdido. As pessoas perguntando… essa era a pior parte, a vergonha de contar o que tinha acontecido. Tudo por uns poucos comprimidos, oras!

— Semanas? Foi tão sério assim?

— Poucas semanas. Só até resolvermos essa situação. Até você ficar bem.

Helena não respondeu.

A psicóloga abriu o caderno.

— Quero que você escreva.

— Escreva o que?

— O que quiser. Para quem quiser. 

Helena soltou um riso quase seco, sem conseguir se conter, que exigiu um tanto de esforço.

— E se eu não souber o que dizer?

Ana Laura a encarou com calma escolhendo as palavras com cuidado.

— Você está numa situação muito atípica. Alguma coisa você tem para dizer.

Só restou o silêncio no quarto, tão calmo quanto intimidador. Deixou o caderno e a caneta sobre a mesinha ao lado da cama.

— Não precisa escrever agora. Mas pense com carinho... Como uma possibilidade.

Antes de sair, acrescentou:

— Às vezes a gente não precisa de respostas. Só precisa começar a fazer perguntas honestas.

Deu um longo sorriso tão quente que foi possível sentir o amor nele. Elas sorriram entre si. Ela se levantou, olhou para o caderno e a caneta, e saiu. Assim que a porta se fechou Helena ficou olhando para o caderno. Parecia um caderno de dez matérias, grande. Capa preta. Simples. Ficou assim por minutos, ou horas, não sabia. O tempo naquele lugar não obedecia nada. 


    Estava sozinha no quarto. Havia alguns móveis, mas não havia televisão, revistas, ou qualquer item que pudesse lhe proporcionar distração. Reparou em uma janela grande, com uma veneziana que estava fechada. O lugar era muito limpo e minimalista. 

Com algum esforço, estendeu a mão e abriu o caderno. Todo em branco. 

— Ok. — murmurou sozinha. — Pelo jeito vou ter bastante tempo. Talvez escrever ajude a passar mais rápido. Mas o que vou escrever, e pra quem?

Pensou na mãe. No pai. No ex. No chefe. Mas não sentiu vontade de escrever pra nenhum deles. Nada tocava seu coração. Então veio um pensamento estranho, quase involuntário: “E se eu escrevesse para quem eu poderia ter sido?” A ideia ficou suspensa no ar. Sentiu um alento no peito, como se seu coração concordasse. 




-- PARTE 2 -- Primeira Carta - Para e Helena Que Eu Queria Ser

Pegou a caneta. Escreveu bem no topo da página, no espaço acima da primeira linha. 

Para a Helena que eu queria ser.

Ficou olhando aquelas palavras. Algo apertou no peito. Não era desespero, mais parecia um tipo de saudades do que poderia ter sido. Começou a escrever no mesmo instante que as gotas de chuva começavam a cair pesadas do lado de fora. 

“Aqui estou eu, em um hospital ou algo do tipo, por ter tomado calmantes demais. Quando mais eu tento aliviar tudo mais parece que me afundo. E imagino você, Helena que eu queria ser. Eu imagino que você tenha lutado.  Imagino que você tenha sido tudo que eu não consegui ser. Talvez você teve mais coragem pra dizer não, para largar o que não servia. Talvez simplesmente não tenha dado importância demais para coisas tolas. Tenha priorizado sua saúde física e mental, e não precisou agradar a ninguém. Se formou e teve outra profissão. Talvez você tenha casado.”


Parou. Sentiu algo estranho, mas ignorou. Continuou.

“E eu penso comigo se você está em paz.  Qual o resultado das escolhas de um caminho diferente.

Penso que teve uma família pra chamar de sua, marido, talvez filhos lindos e doces, e quem sabe um cachorro ou gatinho. Você estudou artes como queria, se formou e conseguiu trabalhar como em seu sonho? Talvez teve uma empresa, ou criou obras e quadros. Talvez tenha feito o desenho de objetos bonitos. Penso se tirou carteira de motorista, superando seu medo de dirigir. Quem sabe até de moto. Você viajou pra lugares bonitos, e conheceu pessoas incríveis. E você deixou uma marca muito bonita no mundo.”

Largou a caneta e respirou fundo. Ao reler, parecia que havia escrito pouco comparado ao grande esforço que fez. Fechou o caderno e virou o rosto para o lado, exausta. E adormeceu.


Só abriu os olhos novamente quando ouviu um som leve. Virou-se. O caderno estava aberto, e havia algo escrito na página seguinte. Ficou imóvel por um tempo. Parecia a sua letra, mas diferente. Ligeiramente maior, mais segura. Os traçados eram mais firmes e parecia que havia sido escrito com força. Um arrepio a atravessou de cima até embaixo. Quando o calafrio passou por trás do pescoço, levantou ligeiramente os ombros para senti-lo percorrer o corpo todo. 

Não imaginou que alguém fosse ler sem sua permissão. Pensou consigo “Deve ser coisa da Ana Laura.”

Lentamente, e com muita desconfiança, puxou o caderno para mais perto e começou a ler. 


“Você sempre achou que coragem era ausência de medo. Não é. Coragem é ir, mesmo tremendo por dentro. Se eu pudesse lhe falar da maior bênção que eu poderia lhe dar, não seria a proteção. Eu nunca lhe desejaria que as coisas dessem certo por completo em sua vida. Pelo contrário, o maior bem que eu poderia lhe desejar seria uma experiência plena do que é ser humano. Com todas as vitórias e derrotas, os sucessos e as frustrações, os dias felizes e os dias tristes. A disciplina e os vacilos. As forças e as fraquezas. Cada qual em seu momento, e cada qual com seu valor e ensinamento. 

Suas atribulações são no fundo apenas mais do mesmo. Versões modernas de histórias bíblicas, mitológicas, de tempos imemoriais. Eu te digo que sim, valeu a pena. 

Fernando Pessoa diz assim em seu poema "Mar Português":

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Muitas vezes nossas maiores descobertas e conquistas na vida vem depois de grandes desafios. Muitas vezes não nos julgamos capazes de transpor, até que conseguimos, e aí parece que sempre foi assim. E novos caminhos se abrem. Sua dor não veio da escolha, mas de não as ter feito. Você valeu a pena. Não desmereça sua luta e suas escolhas. Eu gostei muito da imagem que você criou da versão alternativa da Helena. Quem sabe podemos conversar mais sobre ela?”


    Ela virou a cabeça para o quarto. Ninguém. Fechou os olhos e prestou atenção aos sons do corredor, que permanecia completamente silencioso. Olhou novamente para a página. Lembrou do sorriso caloroso que recebeu de Ana Laura.

    Então era assim que sua terapia seria conduzida? Folheou a página anterior. Depois, aquela. Que letra bonita. Precisa. Viva. Ficou com o poema na cabeça. E fechou os olhos. Não se sabe por quanto tempo. 



    Quando despertou Ana Laura estava parada à porta, junto de uma enfermeira que aguardava pacientemente para fazer algumas medições com aparelhos. No outro lado a janela grande com a veneziana aberta deixava entrar uma luz que aquecia o quarto todo. Depois de deixar os olhos se acostumarem um pouco com a forte claridade, conseguiu ver algumas árvores e um pedaço azul do céu. Não havia prédios em volta, devia estar em um lugar remoto. A janela entreaberta deixava entrar um ar fresco, que tornava o ambiente ainda mais pacífico. Ao longe, quase na linha do horizonte, uma cadeia montanhosa mostrava suas belas formas arredondadas, em uma imponência e elegância que completavam o bonito quadro que se desenhava. Assim que a enfermeira terminou seus afazeres saiu silenciosamente. 

— Você acordou rápido hoje - disse Ana Laura, com a mesma voz calma.

— Que bonito que é aqui. Não fazia idéia. 

Respirou, como que voltando a si, e perguntou:

— Você escreveu no meu caderno?

Ana Laura não respondeu de imediato. Aproximou-se, sentou na cadeira ao lado da cama, como fizera antes.

— Não fui eu. 

— Quem foi?

— Te digo quando chegar o momento. O que você sentiu ao ler?

— Não sei bem. Acho que um pouco de arrependimento. Um pouco de nostalgia de algo que nem existiu. 

— Que bom que você está se recuperando bem. 

— Não tem nada mais com que possa me distrair aqui?

— Não. Aqui tudo é pensado para acalmar os pensamentos e os sentimentos. Dadas as circunstâncias de como você chegou, esse é o lugar indicado. E essa ausência de atribulações, que muitos chamariam de tédio, faz parte do processo de cura. As pessoas se esqueceram que não precisam estar fazendo algo o tempo todo. 


    Helena ainda pensava onde estaria. Os efeitos de suas ações ainda reverberavam pelo seu corpo e ela se sentia ainda um pouco fraca.  Tomara que tudo voltasse logo ao normal. Já estava até mais tranquila em voltar pra sua vida e seguir em frente. 

— Estou num hospício? — perguntou.

— Não. Está em um hospital especializado em casos como o seu. Fique tranquila. Logo poderá sair pra ver quão belo é lá fora. É só se fortalecer um pouco mais. Por hora, tudo o que podemos fazer é conversar, e se você quiser, escrever. A cada novo dia vemos como as coisas estão indo. Cada sinal de que está melhorando nos dá um alento, e permite que continuemos trabalhando. 

— Obrigada. - Foi tudo que conseguiu responder. 

— Se precisar de algo pode chamar pela campainha. 

Finalmente reparou no quarto onde estava. 

Parecia mais um hotel que um hospital. Tinha um quadro na cabeceira, com formas geométricas que lembravam uma paisagem feita de fractais. Uma mesa de cada lado da cama, que era maior que a própria cama onde dormia todos os dias. Em uma das mesas o caderno e a caneta, e do outro lado uma luminária ao lado de um vaso de vidro, com flores que estavam perfeitamente floridas. Devem ser de plástico, pensou. Um pouco mais afastado, próximo à janela, um pequeno sofá. Vazio. Será que alguém tinha sido avisado que ela estava lá? Em breve as visitas deveriam começar a chegar. 

Com o pensamento de que deveria aproveitar a hospitalidade simples mas elegante de onde estava, e que realmente estava precisando de um tempo sozinha, começou a se conformar com a situação. 

— Que bobagem fiz! - pensou alto.





-- PARTE 3 -- Uma história de amor

    Lembrou-se de quando conheceu Rafael. Definitivamente foi o amor de sua vida, tanto pela profundidade quanto pelo tempo que permaneceram juntos. Lembrava que foi um pouco antes do ano novo, e quando fez as contas percebeu que faria vinte e cinco anos desde esse dia. 

Mas ela lembrava como se fosse ontem. 

    Foi numa ilha, que ficava a cerca de cinco horas de casa. Quer dizer, cinco horas de viagem, porque eram duas horas de carro, atravessando as belas montanhas da serra e mais três horas de barco. Mas entre chegar lá e pegar o barco demorava mais algumas horas, então era preciso tirar quase um dia inteiro. Será que eram essas montanhas que estava vendo pela janela? 

    Quando o pessoal da escola a convidou, pensou muito em recusar, afinal, tinha só uma semana de férias e dois dias seriam gastos somente na viagem. Mas aceitou, afinal o lugar era muito bonito. Afastado, possuia uma vila de pescadores pequena e aconchegante, e uma grande extensão de quilômetros de praia deserta. Também não estaria sozinha. Era uma oportunidade única passar o ano novo com alguns amigos em um lugar diferente. Aceitou. 

    Os três primeiros dias foram bem calmos, chegou na pousada, conheceu várias pessoas diferentes, dentre eles seu Dourado e dona Jolina, os pescadores donos da casa. Foram dias de descanso, praia, diversão e uma conexão com a natureza que não sentia há tempos. Em uma das manhãs acordou de madrugada e sem despertador, algo que era muito raro em sua vida, e saiu pra dar uma volta na praia. Respirando o ar limpo, ainda com aroma da madrugada - seria o ozônio? - observou uma revoada de pássaros que passavam em grupo ao longe, imaginando como seria o dia a dia deles. Enquanto caminhava observava as gaivotas, em uma curva ampla que só se via o mar para os dois lados em sua imensidão e beleza. Conseguiu ver alguns botos passando indo pro alto mar. Estava em um estado de maravilhamento profundo pela existência, e esses dias já eram especiais em suas memórias. Algumas noites tinha fogueira na praia, e as pessoas se reuniam pra conversar, ficar contemplando a paisagem ou tocar violão e cantar. 

    E foi numa dessas noites que conheceu Rafael. Não sabia nada sobre ele. Ele estava com alguns amigos em volta de uma das fogueiras que espaçadas brilhavam na noite escura de lua nova, tocando violão e cantando. Só dava pra ver a escuridão da praia vazia. E foram as amigas de Helena que quiseram chegar mais perto. Foram muito bem recebidas com sorrisos sinceros e convidadas a se juntar ao luau. Resolveram ficar um pouco. O calor do fogo, o vento da noite, a escuridão incrivelmente bela do céu que de tão negro mostrava o rastro da Via Láctea como se tivesse sido tecido em um bordado de luz. 

    Ele tocava violão, e todos cantavam. Seus olhares se cruzavam vez por outra, e ela notava um sorriso diferente nesses momentos. Um amigo do grupo que estava na roda chegou perto de Helena, que estava linda, com um vestido simples azul, comprido até pouco abaixo das coxas, e que mostrava suas formas sem expor demais. Além da sua beleza, sua energia radiante a fazia sorrir diferente, com os olhos. Ele chegou interessado mesmo. Começou a conversar sobre a noite, como estava tudo lindo, como ela era linda... 

    E ela reparou que Rafael olhava com resignação, como se tivesse perdido a chance. Achou engraçado o modo como ele começou a olhar rindo sozinho, e quase conseguia adivinhar seus pensamentos. Por mais algumas músicas o garoto continuou a flertar com ela, e lembra de ter ouvido seu nome mas não gravou. Até que numa tentativa talvez de impressioná-la, pediu a vez no violão. Quando começou a tocar foi realmente impressionante, tocava muito bem e o pessoal seguiu a cantoria. O que o garoto não imaginou foi que nessa deixa Rafael chegou ao lado de Helena e só perguntou:

— Vamos dar uma volta na praia?

Ela consentiu com a cabeça, um sorriso e o olhar. 

— Como é seu nome? 

— Helena. E o seu?

— Rafael. 

Parece que suas almas se encontraram depois de muito tempo. As conversas fluíam sobre sentimentos, pensamentos, a natureza, a vida, o mundo... Contaram um pouco de suas histórias e depois que já se afastavam da última fogueira a vista, em direção à praia deserta, Rafael sugeriu que voltassem. Quando estavam se virando os dois pararam frente a frente. Seus olhares se encontraram. Deve ter sido um instante, mas durou muito tempo. Lentamente se aproximaram um do outro e se beijaram, com um carinho e uma energia que ela não conhecia até então. Ao invés de retornar, sentaram na areia e ficaram conversando por horas. E depois disso foi um dia após o outro, se encontrando e se gostando cada vez mais.

Enquanto lembrava dessa noite, chorou um pouco de alegria e um pouco de saudades.



-- PARTE 4 -- A Segunda Carta - Tudo tem seu fim...

    Ainda sentia a alegria da noite em que conheceu Rafael enquanto recapitulava tudo que tinha se passado. O namoro, a cumplicidade, quando foram morar juntos...

    Nunca tinha se entregue tão verdadeiramente a alguém. E agora parecia que tinha sido tão superficial sua entrega. Ficou um pouco envergonhada de como era egoísta em alguns momentos. Queria ele somente pra si, logo ele que gostava tanto de ser livre. 

    Lembrou-se da noite de jantar entre amigos em que ele acendeu as velas de ideogramas que ela tinha, e ela apagou porque gostava delas. Nunca mais foram usadas. Ficaram empoeiradas e perderam a chance de brilhar em uma noite especial. Lembrou-se das vezes em que não deu atenção às conversas, em que as palavras atraverssaram o ar vazias. Também tiveram muitos momentos bons, isso é verdade. 

    Como as vezes que faziam encontros com os amigos pra conversar sobre a vida, planos para o futuro e compartilhar experiências e risadas. Como quando resolveram morar juntos, e reorganizaram a casa pra ficar do jeito que queriam. Não queriam televisão, e no móvel que antes abrigava o aparelho agora tinha um pequeno jardim. O sofá de canto foi reaproveitado, e a mesa da sala de jantar foi pro outro cômodo, que virou um escritório. Fazer planos era tão bom! 

    Foram alguns dos anos mais felizes de sua vida, e ainda lembra da noite que Rafael a convidou para irem morar em outra cidade, ou em outro país, que tivesse melhores oportunidades. Helena prontamente recusou, não queria sair do lugar onde conhecia e gostava, e sua vida tinha corrido tão bem até então sem precisar desse movimento desapegado e arriscado. Mas ele já sabia o que queria, e foi mesmo assim. Os primeiros dias, semanas e meses foram sufocantes. Uma tristeza de luto que a fazia sentir o peito se apertando por dentro. Falta de ar, falta de vontade, apatia e tristeza constante. O que tinha acontecido?

Enquanto lembrava desses dias começou a escrever a segunda carta. 

Para a Helena que amou e foi amada

"Minha querida. Não entendo bem os caminhos que minha vida seguiu. Fico pensando em como seria se você tivesse se entregue um pouco mais. Se tivesse ouvido um pouco mais. Se tivesse lutado um pouco mais por aquele a quem tanto amou. Às vezes só damos valor a um tesouro depois que o perdemos. Parece que enquanto estamos perto dele não é tão brilhante. Deus coloca tantas coisas maravilhosas em nossas vidas, de forma tão gratuita e abundante, que às vezes não conseguimos ver. E eu gostaria de saber, como foi a vida em que fui feliz no amor? Será que foi com o Rafael? Terei encontrado outro grande amor? Será que meu coração ficou como as velas bonitas, esquecidas em uma caixa sem se consumirem por completo? Sempre coloquei a responsabilidade dessa situação nele, mas agora começo a pensar que nada acontece só. Vejo que talvez, não estivesse à altura do vôo que queria dar, ou que talvez não tive coragem de atravessar essa porta do desconhecido, ou ainda que não quis me entregar de verdade, me preservando sabe-se lá de que. "

Enquanto algumas lágrimas começavam a escorrer, mais de alívio do que de tristeza, continuou...

"Minha vida até aqui foi muito boa, dentro do que consegui ver. Talvez minha visão seja curta. Tive medo de me machucar em vôos mais altos, e de me ferir nas acrobacias da vida. Me preservei um tanto demasiado, e agora que estou frágil e com as coisas fora de controle, percebo que nunca controlei nada mesmo. Tudo era ilusão. As coisas que eu pedia não aconteceram, e as que aconteceram não consegui agradecer direito. Essa criatividade que o mundo insiste em ter muitas vezes me pregou peças que eu não poderia nem imaginar, me levando tanto a lugares maravilhosos como a períodos de escuridão imprevisíveis. 

Mas eu acredito, em algum lugar, que pude amar e ser amada. Pra essa Helena, eu desejo de coração que aproveite cada segundo dessa cumplicidade, que possa extrair cada gota do sumo que se forma em tais corações. Eu acredito em finais felizes."


    Já era final de tarde, e o colorido do céu azul se misturava com o avermelhado horizonte, que já dava boas vindas à escuridão da noite. O frio da tarde entrava pela fresta entreaberta. Como se lesse pensamentos, a enfermeira veio, fechou a janela e cumprimentou-a. Fez algumas medições com os aparelhos e saiu silenciosamente. O calor que sentia hoje vinha de dentro, do coração, e as imagens que reviveu em sua mente a fizeram transbordar de gratidão, mesmo sem final feliz. 

Adormeceu...

Ao acordar, com o sol batendo em seu rosto (ninguém fechou a veneziana e as cortinas?), percebeu que havia algo escrito no caderno. A segunda carta havia sido respondida. 


"Helena, o amor permeia tudo, todos os seres e tudo o que existe. O amor da sua vida não era o Rafael, apesar de ele ter sido uma luz em seu caminho. O amor da sua vida sempre foi você. Quando aprendemos a nos desapegar das imagens que temos de nós mesmos, das imagens de nossos corpos e até de nossas mentes, então conseguimos ver as coisas um pouco mais próximas do que realmente são. A existência é uma exuberância de possibilidades, e não há existência sem dor, ao menos não nesse planeta azul. Tudo isso faz parte da grande alegria e responsabilidade de poder escolher entre tantas coisas, pela experimentação da vida. 

Não há como amar ninguém se não for o amor que transborda. Existem tantas histórias que parecem contos de fada, mas na realidade são carências e cobranças. Na aparência tudo é mais bonito e fácil. 

A flor parece que teve tanta facilidade de nascer, mas ela perseverou por meses ou anos: desde que era uma raiz escondida nas entranhas da terra, até virar um brotinho frágil e pequeno, para só depois de muito tempo florir, ainda que por poucos dias. A força interior é a mais importante. 

Você teve um amor mais do que verdadeiro, por todo o tempo que durou, e não foi a falta dele que ocasionou seu fim, mas sim caminhos que se desencontraram. Tudo o que você pôde viver foi ainda maior do que a maioria experimentou. Você talvez ache que foi pouco, mas foi de uma raridade extrema. 

Existe muito carvão no mundo, e pouco diamante. Ambos são feitos do mesmo elemento, o carbono. Mas as configurações que os ligam são diferentes. A pressão e a temperatura extrema que atuam sobre o carvão e o fazem sofrer provações é que o tornam um diamante, tão brilhante e belo. Um cristal que parece tão frágil, com uma dureza capaz de cortar aço. Tudo tem o seu valor. E quase tudo nesse mundo vem com dor. A pior parte de ter algo tão bom é o medo de perder. E isso acontece com quem tem uma casa bonita, um carro elegante, dinheiro na conta. Muitas vezes não conseguimos aproveitar o que temos pelo medo de perdermos. 

Mas o que acontece é que na verdade, nada possuímos. Tudo volta para onde veio, leve mais ou menos tempo.

Apenas agradecer e se entregar é o que podemos fazer. E você o fez, na sua medida. Leve em seu coração a experiência que teve com gratidão e amor, pois  assim como o aroma da dama-da-noite esconde seus segredos do dia, e somente ao entardecer mostra como foi belo, assim são alguns perfumes da vida."

E enquanto agradecia seus olhos brilhavam.




-- PARTE 5 -- O Passeio no Jardim

Ao terminar de ler Ana Laura entrou pela porta. 

— Bom dia Helena!

— Olá Ana, bom dia.

— Está se sentindo bem? A enfermeira me falou que quando quiser poderá sair pra dar uma volta. Pensei que poderíamos conversar um pouco.

— Eu adoraria. Não veio nenhuma roupa minha, nem vieram me ver ou trazer meus pertences?

— Aqui é distante, talvez seja difícil virem até aqui. Mas todos estão cientes da sua situação. Vou conseguir algumas roupas novas, que possam te trazer o prazer de estar livre e bem. 

    Sair de casa sem fazer as malas não era de seu feitio. Pelo contrário, antes de sair fazia uma longa lista com tudo o que tinha que levar, dias, ou semanas antes. Quando começava a arrumar tudo já tinha em sua cabeça o que levar, qual mala usar, que acessórios seriam importantes. Dessa vez parece que seus planos saíram um pouco diferentes. 

Ana Laura chegou com uma roupa limpa, uma calça cinza clara e uma camiseta simples branca. Não era o glamour em pessoa mas era melhor do que a camisola de hospital. 

    Foi até o banheiro tomar um banho e se trocar, e quando se olhou no espelho achou que o descanso havia feito bem. Parecia mais nova, com um rosto sereno. Se admirou por alguns instantes e entrou no chuveiro. Enquanto a água morna a percorria sentiu uma paz imensa. O sabonete deste tinha cheiro de hortelã fresco e parecia recém vindo de uma xícara de chá, de tão forte. Estava ficando mais relaxada e leve. Seu rosto, seu coração, estava tudo mais calmo. Se vestiu rapidamente, não queria demorar pra sair. 


Ao voltar para o quarto, Ana Laura ainda estava lá, olhando com a mesma ternura. 

— Vamos?

    Ao sair do quarto, um corredor largo e imenso mostrou que estava em um hospital muito grande, diferente do que tinha imaginado. Dezenas de portas lado a lado e, bem no meio do corredor, um grande hall aberto para os dois lados onde ficavam as enfermeiras. Para um dos lados a porta de entrada e para o outro o jardim. 

    Enquanto caminhava admirou-se da organização e limpeza, do silêncio, e da paz. Foi seguindo os passos até a porta, e ficou maravilhada com a arquitetura de aço e vidro que deixava a luz entrar pelos dois lados iluminando todo o hall. Mesmo com tantos quartos o movimento era pequeno, e poucas pessoas passavam pelos corredores. 

    Quando saíram viram um imenso jardim, cercado de flores, e com árvores que juntas formavam uma pequena floresta. No centro, uma bonita fonte circular, com contornos feitos de pedra. Uma dezena de borboletas passavam por cima de alguns bancos espaçados, e pequenos muros que pareciam ter sido esculpidos por um jardineiro muito habilidoso delineavam os vários caminhos. Algumas pessoas admiravam a paisagem sentadas, enquanto outras caminhavam pelo bosque. Ao fundo a cadeia de montanhas que conseguia ver do seu quarto. Helena ficou impressionada.

— Que lugar bonito! E como é grande aqui. 

— Eu gosto muito de trabalhar aqui. É um lugar muito especial.

— Onde estamos?

— Estamos no Hospital de Amparo Aurora Celeste.

— Estamos longe da cidade?

— Sim, bem longe. Pra poder realizar os trabalhos que fazemos aqui. 

— E meu plano de saúde cobre isso? Porque eu vim pra cá ao invés de ir pra um hospital normal?

— Tem certeza que é hora de conversarmos sobre isso?

— Tenho sim, quero entender o que está acontecendo. 

— Você morreu, Helena. 


Um silêncio eterno se fez presente. Tudo fazia sentido. Helena desabou. Ana Laura percebeu o choque.

— Sei que não era sua intenção que tudo acabasse assim, mas infelizmente demorou muito para que percebessem que algo estava errado, e os médicos terrenos não conseguiram salvar você. Quando algo assim acontece, é necessário que façamos um processo de transição energética. O tempo que você deveria ter ficado na Terra ainda não acabou, e sua vinda pra cá não estava nos planos. Todos os que estão aqui vieram antes da hora. 

Não podia acreditar. Seus sonhos, seu trabalho, sua vida. Queria estar de volta, queria estar no ônibus voltando pra casa. Queria estar no mercado fazendo as compras. Queria estar em casa. Queria voltar atrás pra mudar a decisão impulsiva que mudou tudo tão rápido. Como assim? 

— Não acredito... - falou com um tom triste, enquanto processava o acontecimento. Pensou que podia estar sonhando. Era tudo um sonho. Começou a chorar compulsivamente.

Sentaram-se em um dos bancos. Ana Laura só ficou ali, segurando sua mão enquanto os raios de sol aqueciam aquelas duas almas que se uniam em um momento tão delicado. A brisa suave que transportava os aromas das flores e da relva trazia lembranças de muitos momentos. Enquanto assimilava o que estava acontecendo uma borboleta de um azul brilhante passou bem perto das duas. Meu Deus, que bobagem! Por conta de uma decisão tão tola. E agora? 


Helena ainda conseguiu falar:

— Só quero uma segunda chance, por favor... 

Começou a suar frio. Suspirou e desmaiou.




-- PARTE FINAL -- O Novo Despertar

Quando Helena acordou estava em seu quarto, em sua casa, viva.

Sua mãe e seu pai em volta, olhando assustados.

— Graças a Deus! Acordou! 

— Porque estão aqui? - perguntou

— Porque ligamos ontem pra você e você não atendeu. Então viemos ver se estava tudo bem. 

Ainda estava suando frio. 

Olhou pra luz entrando pela janela, respirando aliviada, e uma linda borboleta azul brilhante, como só tinha visto uma vez, passou voando livre, como que libertando seus pensamentos para sua nova vida. 



06 novembro 2025

Alan Watts - Quando você não sabe mais o que está fazendo



Quando Você Não Sabe Mais o Que Está Fazendo – Alan Watts

Uma reflexão profunda inspirada nos ensinamentos de Alan Watts sobre o momento em que perdemos o sentido de direção na vida. Longe de ser um fracasso, esse estado de "não saber" é apresentado como um despertar, um convite para uma vida mais autêntica e presente.


1. A Confusão Sagrada

Existe um momento em que percebemos que não sabemos mais o que estamos fazendo. Não por esquecimento, mas porque nossos planos deixaram de fazer sentido. Este não é um erro no sistema, é o próprio sistema.

A vida tem uma forma de dissolver as estruturas que já superamos. Remove as ilusões às quais nos apegamos até finalmente percebermos que eram ilusões. São características desta fase:

- Sensação de vazio onde costumava haver significado
- Movimentar-se pela vida como se estivesse debaixo d'água
- Rotinas que antes davam direção agora parecem ocas
- Nem sempre vem acompanhada de tristeza. Às vezes é apenas um branco, um vazio gentil


2. O Colapso do Propósito Externo

Fomos ensinados que propósito é tudo, que a vida deve sempre apontar para algum lugar: uma meta, uma missão, um destino. Construímos identidades em torno do que fazemos, alcançamos e produzimos. Mas quando a bússola para de apontar para qualquer direção:

- Não é o fim de algo essencial
- É o começo de algo mais profundo
- Apenas quando o propósito externo colapsa é que o propósito interno pode emergir
- Apenas quando paramos de saber com a mente é que começamos a ouvir com o ser


3. A Tentação da Fuga

A maioria das pessoas tenta escapar. Distraem-se. Preenchem o silêncio com ruído. Correm para encontrar um novo projeto, um novo significado, um novo sonho para perseguir. 

Mas quanto mais fugimos, mais perdidos ficamos. Este sentimento não vai embora porque não deveria ir. Não é sintoma de algo errado: é um convite.


4. A Metáfora do Oceano

Pense no oceano: quando as ondas quebram, a superfície parece caótica e imprevisível. Mas lá no fundo, a água está calma.

Quando perdemos nosso senso de direção, estamos sendo puxados para baixo, em direção a essa quietude. A tempestade da mente começa a perder seu poder e algo mais silencioso começa a aparecer sob ela. O problema é que passamos nossas vidas nos identificando com a tempestade, então tememos a calmaria.


5. O Poder de Não Saber

Os mestres antigos falavam sobre o poder de não saber porque não saber é tornar-se ensinável novamente. É um retorno à inocência. Não ignorância, mas abertura. É o tipo de consciência que uma criança tem ao olhar o mundo sem tentar controlá-lo

Quando não temos mais certeza do que estamos fazendo a vida começa a nos mostrar o que ela tem feito o tempo todo. Vemos que as coisas se movem por si mesmas. O coração bate, os pulmões respiram, os planetas giram, as estações mudam. Tudo sem nossa interferência


A Grande Mudança de PerspectivaDe Gerenciar para Participar

O mundo não está pedindo que você o gerencie. Está pedindo que você participe dele. E há uma vasta diferença entre os dois.

Participação significa permitir-se ser movido pela vida, não empurrá-la com esforço e vontade. Dançar com o ritmo ao invés de ditar os passos. Mudar de ser o coreógrafo para ser o dançarino


O Processo de Transformação

Toda mudança significativa começa na confusão. Lagartas não sabem que estão se tornando borboletas. Elas simplesmente se dissolvem. O mesmo é verdade para você.

A vida que você pensava estar construindo está se dissolvendo para que uma mais verdadeira possa emergir. Não projetada por sua mente, mas descoberta por seu ser.



Práticas e Insights


1. Sentar-se com a Névoa

Quando você se encontrar naquela névoa, não corra para limpá-la. Sente-se com ela. Deixe que se desenrole no seu próprio ritmo. Aquela névoa não é uma falha de clareza, é o próprio processo pelo qual a claridade chega.


2. Ver Através da Ilusão Coletiva

Você olha ao redor e pensa que todos os outros sabem o que estão fazendo. Mas eles não sabem. Eles apenas são melhores em fingir. A maioria das pessoas está seguindo roteiros escritos pelo medo. Medo de ficar para trás. Medo da insignificância. Medo da quietude.

Você, no entanto, saiu do palco. Parou de atuar tempo suficiente para ouvir o silêncio sob a performance.


3. Confiar no Desdobramento Natural

Pense em como as flores desabrocham: elas não calculam o momento certo, elas se abrem quando o sol as toca. A mesma inteligência que move as marés e dá nascimento às estrelas está guiando seu desdobramento também. Não precisa de sua interferência constante. Precisa de sua confiança.


4. O Paradoxo do Despertar

Tentamos tanto encontrar significado, sem perceber que o significado é o que está tentando nos encontrar. Ele tem batido à sua porta, esperando que você pare de reorganizar os móveis tempo suficiente para ouvi-lo.



A Inteligência Mais Antiga

Existe uma inteligência muito mais antiga que sua mente que tem te guiado desde antes de você nascer. Ela bate seu coração. Ela faz seus ossos crescerem. Ela te mantém vivo mesmo quando você esquece de viver. Ela não precisa de sua permissão ou de seu plano. Ela só pede sua atenção. Não o tipo que analisa, mas o tipo que vê.



Redescobertas Fundamentais


1. Sobre Propósito

Você nunca deveria ter que descobrir a vida, apenas vivê-la plenamente. Você nunca deveria ter tudo junto. Você deveria desmoronar repetidamente até ver que nunca houve nada para manter junto em primeiro lugar


2. Sobre Identidade

Você não é o dançarino, é a própria dança. O que pode ser definido não é verdadeiramente você. Você sempre foi fluido demais para etiquetas.


3. Sobre Clareza

Clareza não vem de entender tudo, vem de aceitar que você nunca vai entender. Paz não vem de resolver seus problemas, vem de ver que você não é um problema a ser resolvido.


4. Sobre Presença

Os momentos que você chamou de sem sentido nunca foram vazios, eles eram simplesmente não observados. A vida não estava esperando para se tornar significativa, você estava esperando para se tornar presente.


O Novo Tipo de Liberdade

Quando esta realização começa a se estabelecer você para de desejar respostas como costumava. As perguntas permanecem, mas não te atormentam mais. Elas simplesmente existem, como estrelas espalhadas pela noite. Silenciosas, misteriosas, e de alguma forma perfeitas em sua distância. 

Uma alegria silenciosa começa a florescer. Não a alegria barulhenta da conquista, mas a alegria suave de pertencer. Pertencer a nada em particular, ainda que a tudo ao mesmo tempo.

Você percebe que nunca esteve separado do fluxo que tentava controlar,  mas era o próprio fluxo, sonhando que estava perdido. Não precisa perseguir seu próximo capítulo porque ele já está se escrevendo sozinho


Sincronicidades e Harmonia

Quando você confia, a vida começa a te encontrar no meio do caminho. 

Sincronicidades aparecem não como milagres, mas como expressões naturais de harmonia. Você encontra as pessoas certas no momento certo, as oportunidades que você perseguia começam a se desdobrar sozinhas, você percebe que o mundo nunca esteve retendo nada de você, mas estava esperando que você parasse de resistir a ele. A existência sempre foi completa.


A Sabedoria do Não Saber

Porque não saber é libertador, não saber tem sua própria inteligência. Não é mais confusão, é um espaço, uma vasta e silenciosa abertura que permite tudo ser o que é. A mente, uma vez frenética para decidir e definir, agora aprende a se curvar diante de algo que não pode medir.


A Nova Forma de Viver

Você começa a viver mais gentilmente. Escuta mais profundamente. Fala menos frequentemente, mas com mais verdade. Torna-se menos interessado em convencer e mais interessado em compreender

Você vê cada pessoa que encontra também está caminhando seu próprio caminho incerto, tentando encontrar paz no mistério. Esse entendimento gera compaixão.


Atos Sagrados no Ordinário

Todo ato comum se torna sagrado: Lavar um prato, assistir a chuva, sentar-se com alguém em silêncio. 

Você sente a mesma inteligência movendo-se através de tudo, não acima ou além da vida, mas dentro dela. A iluminação nunca foi sobre escapar do mundo, foi sobre voltar para casa, para ele como ele é.


Sobre Incerteza

Você ainda pode acordar algumas manhãs se sentindo incerto, mas isso não te assusta mais. Você aprendeu a reconhecer isso como um sinal de que está vivo. Porque certeza é o fim da curiosidade, e curiosidade é o pulso da própria existência.


Sobre Humanidade

Ser humano nunca foi um erro a superar, mas o milagre que você deveria encarnar. Não saber o que você está fazendo nunca foi o fim. Foi o convite, a porta de entrada, o chamado de volta ao que é real.


A Verdade Simples

A verdade que você tem procurado não está escondida em livros ou filosofias. Está na forma como sua respiração se move quando você finalmente para de correr, no calor de um nascer do sol que você quase perdeu, na dor silenciosa que te lembra o quão profundamente você ainda pode sentir.


Quando você para de saber, você começa a viver.

Quando você para de tentar chegar, você começa a chegar em todo lugar.

Quando você para de buscar o divino fora da vida, você percebe que ele esteve escondido dentro de cada momento que você ignorou.

Você sorri não porque tudo é perfeito, mas porque não precisa ser.

Você não está mais esperando para começar. Você já começou.


Site oficial de Alan Watts: https://alanwatts.org

22 outubro 2025

A vida é Apenas um Jogo: Como Hackear ela (by Alan Watts)

 


A Vida é Apenas um Jogo: Como Hackeá-la - Alan Watts

Fonte: YouTube - Life Is Just a Game, Here's How To Hack It Canal: Alan Watts Daily Wisdom Data de Upload: 06 de outubro de 2025 Duração: 21 minutos


Visão Geral

Nesta palestra profunda, Alan Watts apresenta a vida não como um problema a ser resolvido ou um teste a ser aprovado, mas como um jogo magnífico a ser jogado com habilidade, alegria e leveza. Ele explora como nossa abordagem séria da vida é uma armadilha e como podemos nos libertar ao compreender as verdadeiras "regras" da existência.


Principais Conceitos

1. O Paradoxo da Seriedade

Watts começa identificando o problema fundamental: nos colocamos em uma situação peculiar ao levar a vida terrivelmente a sério, como se fosse um exame final onde uma resposta errada poderia nos condenar ao fracasso eterno.

A transição da infância para a idade adulta:

  • Quando crianças, jogávamos com convicção total (faroeste, casinha, festas de chá imaginárias)
  • Nos tornávamos completamente o personagem, mas nunca esquecíamos que era brincadeira
  • Quando chamados para jantar, abandonávamos o papel sem crise de identidade
  • Em algum momento, esquecemos como brincar e nos tornamos "atores de método" no teatro da vida
  • Ficamos tão absortos em nossos papéis que esquecemos que estávamos atuando

2. Primeira Regra: Você Não É Quem Pensa Ser

A natureza da identidade:

  • A pessoa que você chama pelo seu nome, com sua história particular, preocupações e sonhos, é apenas seu personagem no jogo
  • É uma máscara, um papel que você está interpretando tão convincentemente que enganou até a si mesmo
  • O "verdadeiro você" é o jogador, não o personagem
  • Você é a consciência que pode observar pensamentos, sentimentos e sensações
  • Você é o espaço onde todas as experiências surgem e se dissolvem
  • Você é o palco onde todo o drama se desenrola

A libertação da compreensão:

  • Ao ver isso realmente, o jogo muda completamente
  • Você percebe que tem sido como um ator que ficou tão perdido em seu papel que esqueceu que podia tirar o figurino e ir para casa
  • Você não está preso ao personagem - pode jogá-lo habilmente, aproveitá-lo completamente, mas não precisa estar aprisionado por ele

3. Segunda Regra: Não Há Condição Final de Vitória

O propósito está no processo:

  • O jogo não tem prêmio final, nenhuma linha de chegada onde você possa declarar vitória e se aposentar
  • O ponto do jogo é o próprio jogar
  • A vida é mais como música ou dança do que uma jornada com destino
  • Você não dança para chegar a um lugar específico no chão
  • Você não ouve uma sinfonia para chegar à nota final
  • O significado está no movimento, no fluir, no jogar

O problema da pressa:

  • Transformamos a vida em uma corrida
  • Corremos pela infância para chegar à idade adulta
  • Nos apressamos pela escola para chegar à carreira
  • Trabalhamos freneticamente para alcançar a aposentadoria
  • Então sentamos em nossas cadeiras de balanço, perguntando onde tudo foi
  • Estávamos tão ocupados tentando chegar a outro lugar que perdemos o único lugar onde realmente estávamos: aqui

O jogo acontece sempre no agora:

  • Não amanhã quando você será mais feliz
  • Não ontem quando as coisas eram melhores
  • Mas agora mesmo, este é o único momento em que o jogo está sendo jogado
  • A maioria de nós é como pessoas em um concerto que passam toda a apresentação lendo as notas do programa tentando descobrir o que vem a seguir, em vez de ouvir a música que está tocando agora

4. Terceira Regra: O Jogo Está Completamente Manipulado a Seu Favor

A natureza da vitória:

  • Não importa o que aconteça com você, não importa qual papel você se encontre interpretando, você não pode realmente perder
  • Por quê? Porque você não é apenas seu personagem - você é o jogo inteiro

A analogia do sonho:

  • Em um sonho, você pode ser perseguido por um monstro e parece aterrorizante
  • Mas quando acorda, percebe que era tanto aquele sendo perseguido quanto o monstro perseguindo
  • Você era o sonho inteiro
  • Da mesma forma, você não é apenas um jogador no jogo cósmico - você é o jogo jogando a si mesmo

A natureza da consciência:

  • Cada pessoa que o irrita, cada situação que o desafia, são parte de sua experiência
  • Eles existem em sua consciência
  • Em um sentido muito real, o universo inteiro como você o conhece está acontecendo dentro de sua consciência
  • Você não é um ser pequeno e separado lutando em um mundo hostil
  • Você é o mundo olhando para si mesmo através dos olhos do que você chama de "você"

Mudança de perspectiva:

  • Quando alguém o critica, em vez de ficar na defensiva: "Ah, aqui está o universo interpretando o papel do crítico. Que interessante. O que posso aprender com essa apresentação?"
  • Ao enfrentar uma situação difícil, em vez de perguntar "por que isso está acontecendo comigo?", pergunte "por que estou acontecendo com isso?"
  • Se você é o jogo inteiro, então não é vítima das circunstâncias - você é as circunstâncias aparecendo para si mesmo como desafios para tornar o jogo interessante

5. Jogando com Toque Leve

A abordagem do mestre:

  • Isso não significa tornar-se passivo ou indiferente
  • Quando você sabe que está jogando um jogo, pode jogá-lo com tremenda habilidade e entusiasmo
  • Você pode se importar profundamente com seus movimentos sem ficar devastado se não funcionarem perfeitamente
  • Você pode amar plenamente sem ser destruído se esse amor não for correspondido
  • Você pode trabalhar apaixonadamente sem ser esmagado se seus esforços não tiverem sucesso imediato

A metáfora do jazz:

  • É como ser um grande músico de jazz
  • Você conhece a estrutura básica da música, mas está sempre pronto para improvisar
  • Você responde ao que os outros músicos estão fazendo
  • Você não tenta forçar a música em algum padrão predeterminado
  • Você flui com ela, joga com ela, dança com ela

Vida como jazz vs. música clássica:

  • A maioria das pessoas aborda a vida como se estivesse tocando música clássica com um maestro muito rigoroso
  • Cada nota deve ser exatamente como escrita
  • Não há espaço para espontaneidade ou criatividade
  • Mas a vida é muito mais como jazz - o ritmo básico está lá, mas dentro dele existem infinitas possibilidades de improvisação e jogo

6. A Liberdade da Inconsistência

Você não precisa ser consistente:

  • Você não tem obrigação de ser a mesma pessoa que era 5 minutos atrás
  • O personagem que você tem interpretado, com todas as suas limitações e problemas, não é uma fixação permanente
  • É mais como roupa que você pode trocar
  • Gastamos muita energia defendendo nossa autoimagem, protegendo nossa reputação, mantendo nossa personalidade

Reinvenção constante:

  • E se você pudesse ser quem escolhesse ser em cada momento?
  • E se, em vez de estar preso ao seu passado, você pudesse se reinventar constantemente?
  • Não de forma instável ou louca, mas de maneira fluida e criativa que permite responder com frescor a cada situação
  • As crianças fazem isso naturalmente - um momento são princesas, no próximo são dragões, depois pilotos de corrida
  • Elas não se preocupam com consistência

7. A Unidade Fundamental

Todos são você:

  • Cada pessoa que você encontra é você usando uma máscara diferente, jogando um papel diferente
  • Aquele colega irritante, aquele parente difícil, aquele estranho na rua que sorriu para você - todos são você, explorando como é ser personagens diferentes no grande drama
  • Quando você vê isso, a compaixão surge naturalmente
  • Não o tipo condescendente de compaixão que olha de cima para os outros
  • Mas o reconhecimento de que estão todos juntos nisso, todos interpretando partes no mesmo teatro cósmico

Diferença na superfície, unidade na profundidade:

  • Isso não significa que todos são iguais no nível superficial
  • Obviamente, as pessoas têm personalidades diferentes, históricos diferentes, maneiras diferentes de interpretar seus papéis
  • Mas no nível mais profundo, a consciência olhando através dos olhos deles é a mesma consciência olhando através dos seus
  • Somos todas janelas na mesma casa, cada uma com uma vista diferente, mas todas parte da mesma estrutura

8. Dor vs. Sofrimento

Distinção crucial:

  • Dor é natural, inevitável

    • Se você bate o dedo do pé, dói
    • Se alguém que você ama morre, você sofre
    • Essas são simplesmente parte da experiência humana, parte do que torna o jogo interessante e completo
  • Sofrimento é diferente

    • É a história que contamos sobre a dor
    • É a resistência ao que está acontecendo
    • É a exigência de que a vida seja diferente do que é
    • Dor diz: "isso dói"
    • Sofrimento diz: "isso não deveria estar acontecendo, é injusto, significa algo terrível sobre mim ou meu futuro"

Experimentando sem resistência:

  • Quando você entende essa distinção, pode aprender a experimentar a dor sem adicionar a camada extra de sofrimento
  • Você pode sentir tristeza sem a história de que deveria estar feliz
  • Você pode enfrentar desafios sem a narrativa de que é uma vítima
  • Você pode encontrar contratempos sem o drama de que sua vida está arruinada

A metáfora do clima:

  • Às vezes chove, às vezes faz sol
  • O céu não resiste à chuva nem se apega ao sol
  • Simplesmente permite que qualquer clima que esteja acontecendo aconteça
  • Você pode abordar seu clima interior da mesma maneira
  • Às vezes se sentirá alegre, às vezes triste, às vezes confuso, às vezes claro
  • Nenhum desses estados é permanente - são apenas parte do clima mutável da consciência

9. A Libertação de Não Ter Opinião Sobre Tudo

Economizando energia:

  • Você não precisa ter opinião sobre tudo
  • Você não precisa julgar cada experiência como boa ou ruim, certa ou errada
  • Às vezes você pode simplesmente dizer "que interessante" e deixar por isso mesmo

O fardo do julgamento constante:

  • Fomos treinados para avaliar constantemente, sempre decidindo se gostamos ou não do que está acontecendo
  • Mas esse julgamento constante é exaustivo
  • É como ser um crítico que não pode simplesmente aproveitar um filme porque está muito ocupado analisando cada cena

Leveza de opinião:

  • Às vezes você pode apenas observar, apenas experimentar, apenas estar presente sem precisar ter uma posição sobre tudo
  • O jogador mestre aprende a manter suas opiniões levemente
  • Eles podem ter preferências, mas não se apegam a elas
  • Podem aproveitar sua comida favorita sem ficar chateados quando ela não está disponível

10. Abraçando o Inesperado

A natureza da surpresa:

  • A única previsibilidade sobre este jogo é que ele é imprevisível
  • No momento em que você acha que tem tudo resolvido, a vida lhe dará uma bola curva
  • No momento em que você fica confortável com seu papel, as circunstâncias o convidarão a interpretar uma parte diferente

Valor das surpresas:

  • Em vez de resistir a essas surpresas, você pode aprender a recebê-las
  • Elas mantêm o jogo interessante
  • Imagine jogar xadrez com alguém que sempre faz os mesmos movimentos
  • Ou assistir a um filme onde você sabia exatamente o que aconteceria a seguir
  • Quão chato seria?
  • As surpresas, as reviravoltas, as voltas inesperadas - são o que torna a vida uma aventura em vez de uma rotina tediosa

Desenvolvendo gosto pela surpresa:

  • Quando você para de precisar controlar cada detalhe
  • Quando você desenvolve o que poderíamos chamar de gosto pela surpresa
  • Você começa a achar a vida infinitamente fascinante em vez de constantemente frustrante

11. Não Existem Erros Reais

Redefinindo fracasso e sucesso:

  • Não há erros reais, apenas experiências
  • O que você chama de fracassos são apenas experimentos que não funcionaram como esperado
  • O que você chama de sucessos são experimentos que excederam suas expectativas
  • Mas são todos apenas pontos de dados no grande experimento de ser humano

A analogia da criança aprendendo a andar:

  • Uma criança aprendendo a andar não chama de fracasso quando cai
  • Eles simplesmente se levantam e tentam novamente
  • Não carregam vergonha pelo tombo
  • Não desenvolvem uma história sobre ser ruins em andar
  • Eles tratam cada queda como informação sobre como equilibrar melhor da próxima vez

Nossa abordagem autodestrutiva:

  • Em algum lugar ao longo do caminho, perdemos essa sabedoria
  • Pensamos que deveríamos ser capazes de fazer tudo perfeitamente na primeira tentativa
  • Pensamos que erros são sinais de inadequação em vez de partes naturais do processo de aprendizado
  • Transformamos cada tropeço em evidência de que somos de alguma forma deficientes

Pergunta transformadora:

  • E se você pudesse abordar toda a sua vida com a mesma atitude que aquela criança tem em relação ao aprendizado de andar?
  • E se cada erro fosse apenas informação?
  • Cada fracasso apenas feedback?
  • Quão mais leve você se sentiria se não estivesse carregando todo aquele autojulgamento sobre seu desempenho imperfeito?

12. Wu Wei - Ação Sem Esforço

Os melhores jogadores:

  • Muitas vezes são aqueles que parecem estar jogando menos
  • Eles se movem pela vida com uma espécie de facilidade sem esforço
  • Não porque não se importam, mas porque aprenderam a trabalhar com o fluxo natural em vez de contra ele

A metáfora da natação:

  • É como a diferença entre nadar contra a corrente e flutuar rio abaixo
  • Ambos requerem habilidade, mas um é exaustivo enquanto o outro é energizante
  • Quando você entende as correntes da vida, quando aprende a ler os padrões da existência
  • Você pode realizar muito mais com muito menos esforço

Wu Wei:

  • Isso não significa ser preguiçoso ou passivo
  • Significa ser inteligente sobre quando agir e quando esperar
  • Quando empurrar e quando ceder
  • Significa desenvolver o que os chineses chamam de wu wei
  • Frequentemente traduzido como "não-ação", mas realmente significa ação que é perfeitamente apropriada à situação

A água e a rocha:

  • Como a água fluindo ao redor de rochas em um riacho
  • A água não tenta lutar contra a rocha
  • Simplesmente flui ao seu redor
  • E ao fazer isso, gradualmente desgasta a rocha
  • Este é o poder da abordagem gentil, do toque leve
  • Do jogador habilidoso que entende que a força raramente é a resposta para os desafios da vida

13. Múltiplos Papéis Simultâneos

Fluidez entre identidades:

  • Outro aspecto crucial de dominar este jogo é aprender a interpretar múltiplos papéis simultaneamente sem se confundir sobre qual é qual
  • Você pode ser um parceiro, um pai, um profissional, um filho, um amigo - tudo ao mesmo tempo
  • Cada papel tem seus próprios requisitos, seu próprio figurino, sua própria maneira de ser

O jogador habilidoso:

  • Pode se mover fluidamente entre esses papéis sem perder seu centro
  • Podem ser duros em negociações comerciais e ternos com seus filhos
  • Podem ser um estudante em um contexto e um professor em outro
  • Não ficam presos em nenhuma identidade única

Autenticidade real:

  • A maioria das pessoas comete o erro de tentar ser a mesma pessoa em todas as situações
  • Eles pensam que autenticidade significa nunca mudar, nunca se adaptar
  • Mas a autenticidade real é ser apropriado a cada momento, cada relacionamento, cada contexto
  • É como ser um ator habilidoso que pode interpretar muitas partes convincentemente porque entende a verdade mais profunda que conecta todos os papéis

14. As Regras Não São Fixas

A mágica do jogo:

  • As regras não são fixas - elas podem mudar e frequentemente mudam com base em como você escolhe jogar
  • A maioria dos jogos tem regras rígidas que todos devem seguir
  • Mas o jogo da vida é mais como uma improvisação colaborativa onde as regras evoluem conforme você joga

Participação ativa da consciência:

  • Suas escolhas, suas atitudes, suas maneiras de ser realmente influenciam como o jogo se desenrola para você
  • Se você aborda a vida com medo e suspeita, tende a encontrar situações que confirmam seus medos
  • Se você a aborda com curiosidade e abertura, tende a encontrar oportunidades e aventuras
  • Se você interpreta o papel da vítima, encontrará muitas pessoas dispostas a interpretar o vilão
  • Se você interpreta o papel do herói, descobrirá sua própria capacidade de coragem e criatividade

Consciência criativa:

  • Isso não é apenas pensamento positivo ou fantasia ilusória
  • É o reconhecimento de que a consciência não é passiva
  • Não está apenas observando a realidade
  • Está participando de sua criação
  • Sua consciência, sua atenção, suas escolhas são todos ingredientes ativos no desdobramento de sua experiência

15. Todos Ganham

Vitória compartilhada:

  • Todos conseguem ganhar, mas não da maneira que geralmente pensamos em ganhar
  • A ideia usual de ganhar envolve alguém perder
  • Mas neste jogo cósmico, sua vitória não requer a derrota de ninguém
  • Na verdade, quanto mais habilmente você joga, mais você ajuda todos os outros a jogar habilmente também

O efeito cascata:

  • Quando você está verdadeiramente feliz, você não torna os outros miseráveis - você os inspira a encontrar sua própria felicidade
  • Quando você está genuinamente em paz, você não cria conflito - você ajuda os outros a descobrir sua própria paz
  • Quando você é autenticamente você mesmo, você não diminui os outros - você os encoraja a serem autenticamente eles mesmos

Os mestres:

  • É por isso que os mestres, os jogadores realmente habilidosos, muitas vezes parecem estar jogando um jogo totalmente diferente de todos os outros
  • Eles não estão competindo
  • Não estão tentando provar nada
  • Não estão mantendo pontuação
  • Estão simplesmente jogando pela pura alegria de jogar
  • E de alguma forma todos ao seu redor começam a jogar melhor também

16. O Jogo Nunca Termina

Continuidade da consciência:

  • O jogo nunca termina realmente
  • O que você chama de morte é apenas mudar de figurino, mudar de papéis, mudar o cenário
  • O jogador, o verdadeiro você, a consciência que tem observado todo esse desempenho, continua

Transformação da perspectiva:

  • Quando você realmente entende isso, muda tudo
  • Você para de ser tão desesperado para se apegar ao seu papel atual
  • Você para de ter tanto medo da mudança
  • Você percebe que não está apenas jogando no jogo
  • Você é o jogo jogando a si mesmo, explorando infinitas possibilidades através de incontáveis personagens e histórias

Conclusão e Mensagem Final

O convite de Watts:

Da próxima vez que você se encontrar levando a vida muito a sério, lembre-se:

  • Você não é um indivíduo lutando tentando sobreviver em um universo hostil
  • Você é o próprio universo interpretando ser um indivíduo
  • Explorando como é aparentemente lutar, aparentemente ter sucesso, aparentemente falhar, aparentemente ganhar
  • É tudo jogo
  • É tudo dança
  • É tudo música

A natureza da existência:

  • Você é tanto o compositor quanto a música que está sendo cantada
  • A dança e o dançarino
  • O jogo e o jogador

O chamado à ação:

  • Jogue habilmente
  • Jogue alegremente
  • Jogue com aquele toque leve que vem de saber que é tudo um magnífico jogo cósmico

A revelação final:

  • Neste jogo, todos conseguem ser os vencedores porque todos são você e você é todos
  • E somos todos apenas a única consciência jogando em ser muitos
  • O jogo nunca termina
  • Apenas muda de forma
  • E que jogo delicioso é


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Conceitos Relacionados para Estudo

  • Wu Wei (não-ação)
  • Não-dualidade
  • Budismo Zen
  • Taoísmo
  • Advaita Vedanta
  • Consciência testemunha
  • Maya (ilusão)
  • Lila (jogo divino)
  • Ego e Self
  • Mindfulness


03 janeiro 2025

Arte

 


Como criar é divertido...

Algumas coisas que venho fazendo nos experimentos da arte digital, criados no Rarible, em forma de NFT. Visita lá vai!


27 novembro 2024

Como as coisas funcionam?


 

Muitas vezes é difícil seguir o caminho... Temos vergonha de ser, medo de interagir. Talvez o melhor pensamento seja o de acreditar que estamos sozinhos quando precisamos de ajuda, mas que devemos estar prontos a auxiliar. Talvez a gente só não esteja entendendo direito bem como as coisas funcionam. 
E como as coisas funcionam? Em seus mecanismos estruturais mais internos?

Acredito que poucas pessoas tem a consciência de como as coisas funcionam. Eu também não sou uma delas. Mas tenho algumas pistas. Pessoas que gostam da guerra, pra poder gerar um lucro fácil em cima de artigos que quanto mais você usa mais aumenta a demanda. Pessoas que sabem como usar o mundo os outros. O custo da destruição será distribuído, o ganho será concentrado. Não é necessário ir muito mais longe. Hoje fui comprar livros e escolhi a Amazon. Quantas lojas já fecharam, e quantas fecharão? Mas... O preço é bom e entrega em casa. Como as coisas funcionam?

E as vidas profissionais, ao invés de se tornarem uma expressão da realização pessoal acabam muitas vezes virando um circo de competição. E nem sei o que vai acontecer quando toda essa competição encontrar os robôs, incansáveis e perfeitos. 

Será que teremos que nos destruir para nos integrar? Não que eu seja o maior fã de pessoas do mundo, mas é disso que se trata...  Refletir sobre o que se quer... Saber onde chegar... Simplificar... Simplificar... Se nos querem sozinhos e compulsivos, que sejamos integrados e livres. As coisas funcionam de acordo com as leis da natureza. Todo o restante é baseado em software de pensamento. Abrindo a mente encontramos a verdadeira existencia. 


26 outubro 2024

Sobre Viver


Sobre Viver

Viver...

Crescer é viver.
Conhecer a si é viver.
Olhar para o céu, para a terra,
sentir o tempo passar,
também é viver.

Somos efêmeros,
somos preciosos,
somos pequenos demais
para desperdiçarmos a oportunidade.

A oportunidade que levou eras
(para fundir carbono, hidrogênio, oxigênio)
para iluminar o sistema solar,
para moldar um planeta,
para a vida surgir...
para, um dia, nós chegarmos.

E acreditarmos que sempre foi assim.

Às vezes, nos arrastamos,
somente sobrevivemos...
mas isso também é viver.

Ouça sua voz.
Conheça seu caminho.
O tempo não espera.
Não corra. Não pare.
Apenas siga, em frente.

E quando partirmos,
seremos poeira outra vez,
não como um fim,
mas como um retorno.

_______________________________________________________


era assim...

 Viver, Sobre viver...
Crescer, é sobre viver.
Conhecer a si, é sobre viver.
Conhecer a natureza, o Universo,
é sobre viver.

Acalmar a mente,
focar na gente, 
é sobre viver.

Somos efêmeros, preciosos,
insignificantes demais.
para desperdiçarmos a oportunidade

A oportunidade que precisou de tanto tempo
(pra forjar o carbono, hidrogênio, oxigênio)
pra iluminar o sistema solar, 
pro nosso planeta formar, 
crescer e aflorar, 
e então a gente chegar...

e achar que sempre foi assim

às vezes se arrastar,
somente sobreviver, 
também é sobre viver.

ouça sua voz
conheça seu caminho
todos vamos embora
mesmo que devagarinho
não perca tempo
não tenha pressa.

(E quando então partimos,
poeira tornamos outra vez,
retornando ao mesmo lugar
que nos deu a chance de ser.)

01 maio 2024

A Savana - The Veldt

 Não sou muito ligado nas redes sociais, mas eventualmente vejo alguma coisa aleatória pra desvirtuar um pouco a mente antes de dormir. 

Esses dias tive uma surpresa, de ter contato com um vídeo curtinho que me apresentou diversas figuras diferentes, uma melhor que a outra.

Primeiro, o começo. O vídeo em questão é uma versão resumida de uma live que um carinha chamado Joel Thomas Zimmerman, conhecido como deadmau5 fez. 

Melhor do que falar é mostrar, então segue o vídeo do momento mágico que certamente fez com que mais pessoas, assim como eu, conhecessem as pérolas que são o livro (de 1950) e a música (de 2012). 




Basicamente, um carinha (chamado Chris James) fez a letra baseado na história do livro "The Veldt", escrito por Ray Bradbury e gravou os vocais da música. Por um triz deadmau5 não dispensou a audição online, mas a situação foi de 0 a 100 em segundos. 

(A Savana - The Verld - Ray Bradbury - 1950 - versão traduzida pode ser encontrada aqui

O livro é uma história curta sobre uma sala que faz você se sentir em qualquer ambiente, em uma casa super tecnológica do futuro. Tem que ler. 

O resultado final? Algo digno de série, que só o mundo Nerd Digital é capaz.





19 abril 2024

Armadilha do Marketing Multinivel


O marketing multinível, também conhecido como network marketing ou MLM, estilo aquela marca famosa e outros, é um modelo de negócios que tem sido muito criticado por suas práticas questionáveis e resultados muitas vezes decepcionantes.

O vendedor é que compra o produto, e sua sorte está lançada pelo seu sucesso sozinho. A empresa se garante, e o vendedor que se vire. Aqui estão algumas das principais armadilhas do marketing multinível:


Estrutura piramidal: A estrutura de remuneração em forma de pirâmide, toma o dinheiro dos participantes mais baixos para remunerar os que estão mais acima na hierarquia. Isso significa que a maioria das pessoas no topo da pirâmide ganha dinheiro às custas dos outros. 

Foco excessivo na recrutamento: Em vez de se concentrar em vender produtos ou serviços de qualidade, o foco é em recrutar novos membros para ingressar na rede. Isso leva a uma cultura de "venda" forçada e pode resultar em pressão sobre amigos e familiares. 

Produtos caros e de baixa qualidade: Os produtos ou serviços oferecidos pelas empresas de marketing multinível podem ser caros e não terem qualidade comparável àquela encontrada em outros lugares. 

Expectativas irreais: As empresas de marketing multinível muitas vezes prometem resultados financeiros rápidos e fáceis, mas a realidade é que apenas uma pequena minoria consegue alcançar esses resultados. 

Falta de transparência: As empresas de marketing multinível podem não fornecer informações claras sobre seus produtos, serviços ou estrutura de remuneração, tornando difícil para os membros entender como funcionam as coisas. 

Pressão para comprar estoque: Os membros podem ser pressionados a comprar grandes quantidades de produtos para "estoque" ou para atingir metas de vendas, o que pode levar a uma perda financeira significativa. 

Manipulação emocional: As empresas de marketing multinível podem usar técnicas de manipulação emocional para motivar os membros a comprar mais produtos ou recrutar novos membros. 

Despesas ocultas: Além das despesas iniciais, os membros podem enfrentar despesas adicionais, como taxas de membro, custos de treinamento e outros gastos que não são claramente comunicados. 

Falta de suporte: Os membros podem não receber o apoio necessário para alcançar sucesso em seus negócios, o que pode levar a frustração e perda de tempo e dinheiro. 

Legalidade questionável: Alguns programas de marketing multinível podem ser ilegais ou operar na borda da legalidade, o que pode levar a problemas com as autoridades. 

Nem todas as empresas de marketing multinível são ruins ou fraudulentas. No entanto, é fundamental estar ciente dessas armadilhas e fazer sua pesquisa antes de se juntar a qualquer oportunidade de negócios.

Cuide do que é seu de perto, estude, aprenda, mas principalmente, acredite na sua intuição e pense por você. Existem muitos bons vendedores, e muito que vendem ilusões.